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Há opinião acima do Evangelho?

Publicado em 23 de setembro de 2026 - 10:33:08

Os conflitos entre trabalhadores e patrões atravessam a história humana. De um lado, está quem oferece sua força, seu tempo e sua capacidade física. Do outro lado está quem é proprietário, que organiza a produção, administra os recursos e paga pelo trabalho realizado. Essa relação, embora necessária, nem sempre foi ou é justa. Jornadas excessivas, salários insuficientes e condições desumanas fizeram do ambiente de trabalho um espaço de grandes tensões. Nesse contexto, o trabalhador passou a enxergar o patrão como explorador, enquanto o patrão, muitas vezes, olhou para o trabalhador apenas como uma peça da linha de produção. Quando a pessoa é reduzida àquilo que produz, a relação deixa de ser humana e se torna simplesmente utilitária.

Foi nesse contexto que o Papa Leão XIII publicou, em 1891, a encíclica Rerum novarum. Sem negar os conflitos existentes, ele procurou iluminá-los a partir da dignidade da pessoa humana, do direito ao trabalho, do salário justo e da responsabilidade tanto dos patrões como dos trabalhadores.

Entre suas contribuições está a defesa do direito dos operários de se associarem para proteger seus interesses e buscar condições mais justas. Sua reflexão favoreceu o surgimento e o fortalecimento de associações e organizações de trabalhadores inspiradas pela doutrina social da Igreja. Não se tratava de fomentar a luta entre classes, mas de substituir a exploração pela justiça e o confronto permanente pela colaboração responsável.

Em tempos mais recentes, os conflitos não ficaram restritos ao mundo do trabalho. Eles também entraram na vida da Igreja, muitas vezes revestidos de linguagem ideológica. Embora, eventualmente, possam nascer de anseios pastorais genuínos, questões relacionadas ao feminismo, ao machismo, ao celibato sacerdotal e a tantos outros temas passam a interferir nas relações eclesiais quando são apresentadas apenas como disputas entre grupos. Em vez de procurar compreender a verdade, cada lado tenta fazer prevalecer sua própria visão. A Igreja deixa de ser percebida como comunidade de discípulos e começa a ser tratada como um território a ser conquistado.

Essas tensões se agravam quando toda mudança é apresentada como simples acomodação da Igreja à cultura moderna, ou quando qualquer fidelidade à tradição é confundida com imobilismo. Não é incomum encontrar quem arrisque opinar sobre um novo “formato eclesiológico”, sem celibato e com ordenações femininas, como se a Igreja fosse uma mera instituição humana precisando de atualização. A Igreja precisa, sim, escutar as perguntas do seu tempo, mas não pode assimilar automaticamente, acriticamente, as propostas oferecidas pelo mundo. Nem tudo o que é moderno representa um avanço, assim como nem tudo o que é antigo expressa, apenas por ser antigo, a plenitude do Evangelho e da Tradição. O discernimento cristão não consiste em escolher entre o passado e o presente, mas em permitir que ambos sejam iluminados por Cristo.

É justamente nesse ponto que a palavra do profeta Isaías provoca uma mudança de perspectiva: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos” (Is 55,8). Enquanto permanecermos presos apenas às nossas categorias, transformaremos tudo em disputa: patrão contra empregado, homem contra mulher, progressistas contra conservadores, tradição contra renovação. Deus, porém, não entra simplesmente em um dos lados de nossas divisões. Sua Palavra questiona a todos e nos obriga a reconhecer que o Evangelho não pode ser reduzido às medidas estreitas de nossas ideologias.

A parábola dos trabalhadores da vinha (Mt 20,1-16) revela essa diferença. O proprietário sai várias vezes ao longo do dia para chamar trabalhadores. Ao final, paga a todos o mesmo salário. Os que suportaram o peso do dia e o calor sentem-se injustiçados. Olham para as horas trabalhadas, fazem comparações e calculam quem merece mais. O dono da vinha, entretanto, olha para as pessoas. Ele sabe que os últimos também têm uma família para alimentar, uma casa para manter e necessidades que não diminuem porque trabalharam menos horas. Os primeiros calculam o mérito, mas o dono da vinha percebe a necessidade e a dignidade de cada um. Eles enxergam concorrentes, enquanto o dono encontra pessoas esperando uma oportunidade.

O olhar do dono da vinha não despreza a justiça, pois entrega aos primeiros exatamente aquilo que havia combinado. Mas vai além da justiça calculada, abrindo espaço para a misericórdia. O dono da vinha não reduz o trabalhador à sua produtividade nem estabelece o valor de uma vida pelo tempo de serviço. Para ele, ninguém é descartável, ninguém chegou tarde demais e ninguém deve voltar para casa sem o necessário para viver. A pergunta dirigida aos que murmuravam continua atual: “Estás com inveja porque estou sendo bom?” (Mt 20,15). Talvez o maior conflito da parábola não esteja no pagamento, mas na dificuldade de aceitar uma bondade, ou uma proposta de vida, que não cabe em nossos cálculos.

A mudança do pensamento deve conduzir à mudança da vida. Por isso, São Paulo apresenta uma consequência concreta: “Vivei à altura do Evangelho de Cristo” (Fp 1,27). Não basta defender posições, repetir doutrinas ou vencer discussões. É preciso assumir o modo de olhar de Cristo, que reconhece a dignidade antes da utilidade, que percebe a pessoa antes de sua função e coloca a misericórdia acima da competição. Viver à altura do Evangelho significa permitir que o pensamento de Cristo corrija nossos pensamentos e que seu modo de agir transforme nossos relacionamentos, também dentro da Igreja.

Haverá sempre quem prefira tratar essas questões como simples matéria de opinião. É mais fácil discutir quem tem razão do que deixar o Evangelho converter nosso olhar. No entanto, depois que Cristo fala, nem toda opinião permanece igualmente válida. E, se ainda insistirmos em reduzir tudo ao que cada um pensa, talvez o problema não seja a falta de clareza do Evangelho, mas o fato de nossa opinião ter se acostumado a falar mais alto do que Cristo e a verdade de suas palavras.

Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba

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