Muitas pessoas têm uma pequena caixa onde são guardados objetos que perderam o valor material, mas conservaram o valor afetivo. Pode ser o primeiro sapatinho de um filho ou de um neto, uma correntinha arrebentada que alguém especial presenteou, uma fotografia antiga ou uma flor seca recebida em um momento importante. Para quem olha de fora, são apenas coisas velhas e amareladas pelo tempo. Para quem as guardou, porém, cada uma carrega uma história, desperta uma lembrança e faz reviver uma presença.
Guardar recordações é algo bom. Elas ajudam a preservar nossas raízes e a nos lembrarmos das pessoas que deixaram marcas em nossa vida. O problema começa quando, junto com essas lembranças, passamos a guardar sentimentos que nos paralisam e podem adoecer a alma. Há caixinhas interiores cheias de mágoas, ofensas, ressentimentos e palavras duras. De vez em quando, nós as abrimos, retiramos cada recordação dolorosa e revivemos tudo como se tivesse acontecido ontem.
Pedro também parece ter preparado uma medida para guardar as ofensas recebidas. Ele pergunta a Jesus: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” (Mt 18,21). Sua proposta parece generosa. Sete vezes já seria muito para quem foi ferido, humilhado ou passado para trás. No entanto, mesmo sendo ampla, a medida de Pedro ainda é uma caixinha: nela cabem sete ofensas, sete dores e sete amarguras. Depois disso, imagina ele, estaria autorizado a fechar a tampa e conservar o ressentimento.
A resposta de Jesus rompe essa lógica: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,22). Jesus não está propondo uma caixa maior, na qual caibam 490 ofensas. Também não está oferecendo uma nova fórmula para contabilizar o perdão. Ele deseja retirar das mãos de Pedro a calculadora. Quem conta quantas vezes perdoou continua colocando limites à misericórdia. Por isso, mais importante do que aumentar a medida, ampliar a caixa, é mudar a atitude.
Para explicar essa mudança, Jesus conta a parábola do empregado que recebeu do rei o perdão de uma dívida imensa, mas não foi capaz de perdoar a pequena dívida de um companheiro. Ele desejava a misericórdia para si, mas continuava exigindo justiça sem compaixão para o outro. Queria sair livre do encontro com o rei sem permitir que a graça recebida transformasse o seu modo de tratar as pessoas. Seu erro não estava apenas na falta de perdão, mas na resistência em deixar-se modificar pelo perdão que havia recebido.
Também nós podemos pedir a Deus que perdoe nossas fraquezas e, ao mesmo tempo, manter presas dentro de nós as fraquezas dos outros. Rezamos “perdoai as nossas ofensas”, mas encontramos dificuldade para completar com a vida aquilo que pronunciamos: “assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. O perdão de Deus não pode ser apenas um alívio para a consciência; ele precisa tornar-se uma força capaz de renovar nossos relacionamentos.
Perdoar não significa dizer que a ofensa foi pequena, fingir que nada aconteceu ou permanecer em situações que continuam causando sofrimento. Existem feridas que exigem tempo, distância, prudência e até ajuda. O perdão cristão não apaga a verdade nem dispensa a justiça. Ele impede, porém, que o mal recebido continue governando o coração. Perdoar é recusar-se a carregar para sempre aquilo que outra pessoa colocou dentro de nós.
Talvez seja necessário olhar com sinceridade para nossas caixinhas interiores. Algumas lembranças merecem ser guardadas com carinho. Outras precisam ser colocadas diante de Deus para que sejam curadas. A conversão proposta pelo Evangelho passa também por essa escolha, na qual deixamos de acumular ofensas e passamos a permitir que a misericórdia recebida se transforme em misericórdia oferecida. A medida da vida cristã não é a capacidade de acumular ressentimentos, mas a disposição de recomeçar. Afinal, quem pede perdão a Deus não recebe apenas uma dívida cancelada, recebe também um coração novo e a responsabilidade de viver de uma maneira diferente.