Quando visitamos outro país ou uma cidade desconhecida, é comum contar com a ajuda de um guia turístico. O guia conhece o destino, organiza o percurso e chama a atenção para detalhes que poderiam passar despercebidos. Os visitantes podem fazer perguntas, manifestar dificuldades e até sugerir uma parada. No entanto, ninguém contrata um guia para depois caminhar à frente dele, escolhendo sozinho o trajeto e exigindo que todos o acompanhem. Se isso acontece, a ordem foi invertida, porque o visitante deixou de ser conduzido e decidiu assumir a direção.
Algo semelhante pode acontecer em nossa relação com Deus. Dizemos que confiamos nele, pedimos que ilumine nossos passos e afirmamos que desejamos seguir sua vontade. Porém, quando o caminho apresentado não corresponde às nossas expectativas, começamos a tentar mudar o percurso. Queremos continuar com Deus, contanto que ele concorde com nossos planos. É nesse momento que surge uma pergunta simples, mas incômoda: quem está seguindo quem?
O diálogo entre Pedro e Jesus revela com clareza essa situação. Pouco antes, Pedro havia feito uma das mais importantes profissões de fé do Evangelho: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Ele reconheceu corretamente quem era Jesus. Mas, pouco depois, quando o Mestre anunciou que deveria ir a Jerusalém, sofrer, ser morto e ressuscitar, Pedro não aceitou essa possibilidade. Foi então que ele tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!” (Mt 16,22).
Pedro reconheceu Jesus como o Cristo, mas rejeitou o caminho escolhido por ele. Sua reação nasce do afeto, do medo e, muito provavelmente, de uma ideia diferente a respeito do Messias. Para Pedro, sofrimento e derrota não combinavam com o destino daquele que ele mesmo acabara de chamar de Filho de Deus. Por isso, tentou corrigir Jesus. Não pretendia abandoná-lo; queria apenas convencê-lo a seguir outro caminho. É justamente aí que está o problema: Pedro deseja continuar ao lado do Mestre, mas começa a agir como se fosse o seu guia.
A resposta de Jesus é firme: “Vai para trás de mim” (Mt 16,23). Mais do que uma repreensão, essas palavras recolocam Pedro no lugar do discípulo. Ele havia tentado passar à frente para indicar a direção. Jesus o chama novamente para trás, porque é desse lugar que se aprende a seguir. Pedro ainda não compreendia o mistério da cruz, mas precisava reconhecer que não seria ele a decidir qual caminho o Messias deveria percorrer.
Também nós podemos professar a fé com os lábios e resistir ao caminho proposto por Deus. Confiamos quando tudo acontece de acordo com nossos desejos, quando as respostas chegam depressa e as portas se abrem na direção esperada. Porém, diante da demora, da renúncia, da enfermidade, da frustração ou de uma mudança inesperada no rumo das coisas, começamos a questionar o percurso. Em alguns momentos, nossa oração deixa de ser uma busca pela vontade de Deus e se transforma numa tentativa de convencê-lo a realizar a nossa vontade. Já não perguntamos: “Senhor, por onde devo caminhar?”, mas apresentamos o trajeto pronto e dizemos: “Senhor, venha comigo”.
Confiar em Deus não significa permanecer passivo diante das dificuldades, abandonar responsabilidades ou aceitar resignadamente tudo o que acontece. Pedro podia manifestar sua preocupação, fazer perguntas e revelar seus medos. O que não podia era ocupar o lugar do Mestre. Também nós podemos pedir, lutar, procurar soluções e apresentar a Deus aquilo que trazemos no coração. A fé não elimina nossa liberdade nem nossa participação. Apenas nos recorda que não possuímos uma visão completa da estrada.
Um dos desafios da vida cristã, de ontem e de hoje, é continuar seguindo Jesus quando não compreendemos o caminho. É fácil segui-lo quando a direção coincide com nossos planos, mas a confiança amadurece quando o percurso muda e, mesmo sem entender tudo, escolhemos permanecer com ele. Nem sempre conheceremos antecipadamente cada curva ou saberemos por que determinada estrada precisou ser atravessada com os pés na lama. Ainda assim, podemos confiar naquele que conhece não apenas o caminho, mas também o destino.
A pergunta, portanto, permanece necessária: quem segue quem? Se procuramos Deus apenas para que ele confirme as nossas escolhas, já não somos discípulos, porque transformamos o Senhor em acompanhante de nossos projetos. A fé recupera sua verdadeira ordem quando deixamos de querer conduzir Jesus e aceitamos caminhar atrás dele. Foi o que Pedro precisou aprender. É o que cada um de nós precisa reaprender sempre que tenta passar à frente do Mestre.
Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba