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Muito além da opinião

Publicado em 26 de agosto de 2026 - 13:30:17

Nunca foi tão fácil descobrir o que as pessoas pensam. Basta abrir as redes sociais de alguém para encontrar opiniões sobre política, religião, futebol, comportamento, economia e até sobre a vida de desconhecidos. Praticamente tudo pode ser comentado, avaliado, curtido e compartilhado. Empresas querem saber a opinião dos consumidores, políticos acompanham pesquisas, artistas observam a repercussão de seus trabalhos e muita gente mede o próprio valor pela aprovação que recebe. De alguma forma, a opinião pública passou a ocupar um espaço enorme em nossas decisões.

É nesse contexto que uma pergunta feita por Jesus há mais de dois mil anos ganha uma surpreendente atualidade: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”. Os discípulos respondem como quem apresenta o resultado de uma pesquisa: “Uns dizem que é João Batista; outros, Elias; outros ainda, Jeremias ou algum dos profetas” (Mt 16,13-14). Havia muitas respostas. Jesus era conhecido, comentado e interpretado; seu nome circulava entre as pessoas. Poderíamos dizer, usando a linguagem de hoje, que Jesus queria saber o que estavam dizendo a seu respeito.

Mas a conversa não terminou com a primeira pergunta. Jesus faz uma segunda, muito mais exigente: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. A mudança parece pequena, mas é decisiva. A primeira pergunta pode ser respondida repetindo aquilo que os outros dizem. A segunda exige uma resposta pessoal. Já não interessa a opinião da multidão: cada discípulo precisa se posicionar, ontem e hoje.

É então que Pedro responde: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Não é mais uma opinião entre tantas outras, é uma profissão de fé. Pedro não diz que Jesus “parece ser”, que alguns pensam ou que ouviu alguém dizer; ele afirma: “Tu és”. Entre a resposta da multidão e a resposta de Pedro existe uma distância que não se mede pelas palavras, mas pelo compromisso e pela disposição de vida que elas carregam.

Talvez esteja justamente aqui uma das dificuldades do nosso tempo. Estamos nos acostumando a transformar tudo em uma questão de opinião. Diante de qualquer acontecimento, sentimos quase a obrigação de dizer alguma coisa. O problema não está em ter opinião, mas em imaginar que ela seja suficiente. Uma opinião pode mudar rapidamente: basta aparecer um argumento mais convincente, uma notícia diferente ou simplesmente mudar o ambiente em que estamos. A profissão de fé é de outra natureza — pois vai além da mera herança cultural ou da necessidade de acompanhar a maioria —, nascendo de uma experiência que compromete a própria vida.

Essa diferença também aparece na maneira como nos relacionamos com Jesus. É possível admirar seus ensinamentos, concordar com alguns valores do Evangelho, reconhecer sua importância histórica e até falar dele com frequência. Mas tudo isso ainda pode permanecer no campo da opinião. A pergunta de Jesus atravessa essa superfície: “E você, quem diz que eu sou?”. A pergunta não é o que aprendemos sobre ele, nem o que os outros dizem; a questão é quem ele é para nós.

A preocupação excessiva com a opinião pública pode nos levar a construir uma vida voltada para fora. Aos poucos, corremos o risco de escolher palavras, comportamentos e até convicções pensando primeiro na reação dos outros. Quantas pessoas deixam de dizer aquilo em que acreditam por medo da rejeição? Quantas ajustam suas posições conforme o grupo em que estão? Quantas não se perguntam mais se algo é verdadeiro, mas passaram a questionar apenas: "O que vão pensar de mim?". Quando a aprovação alheia se torna o único critério, a convicção perde espaço.

Pedro nos apresenta outro caminho. Sua profissão de fé não nasceu de uma pesquisa de opinião, nem repetiu aquilo que a maioria estava dizendo. Aliás, nenhuma das respostas populares apresentadas pelos discípulos dizia que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo. Pedro teve a coragem de se abrir a uma resposta diferente, de responder de outro lugar. Por isso Jesus lhe diz que aquela verdade não lhe havia sido revelada “pela carne e pelo sangue”, mas pelo Pai que está nos céus.

A fé cristã não nos dispensa de ouvir as pessoas nem nos autoriza a desprezar opiniões diferentes. Ao contrário: quem crê precisa aprender a escutar. Mas existe uma diferença entre escutar a opinião dos outros e entregar a ela a direção da própria vida. Jesus ouviu o que diziam a seu respeito, porém não perguntou aos discípulos qual resposta seria mais popular ou agradaria mais à plateia. Jesus conduziu os discípulos para uma decisão pessoal.

No fim, a pergunta de Cesareia de Filipe continua aberta. Podemos conhecer as respostas dos outros, acompanhar aquilo que se diz sobre Jesus e até repetir palavras corretas sobre ele. Mas chega um momento em que nenhuma resposta emprestada é suficiente. Jesus continua perguntando a cada discípulo: “E você, quem diz que eu sou?”. Num mundo preocupado em saber o que todos pensam, talvez a fé comece justamente quando temos coragem de responder não a partir da opinião pública, mas daquilo pelo qual estamos dispostos a viver.

Dom Devair Araujo da Fonseca
Bispo de Piracicaba

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