Comprar faz parte da nossa vida. Todos os dias entramos em uma padaria, passamos pelo mercado, abastecemos o carro ou fazemos pedidos pela internet. Quase tudo o que nos cerca pode ser adquirido, desde que haja dinheiro suficiente. Estamos tão acostumados com essa dinâmica que ela parece ser a única forma possível de obter aquilo de que precisamos.
O profeta não está condenando o comércio nem negando a importância dos bens materiais. O pão continua sendo comprado, assim como os remédios, as roupas e tudo o que sustenta a vida cotidiana. O problema começa quando essa lógica ultrapassa os limites do mercado e passa a determinar também a maneira como enxergamos as pessoas e as relações humanas.
Sem perceber, começamos a medir tudo pela utilidade. O tempo vale quando produz resultados. Os relacionamentos são mantidos enquanto oferecem alguma vantagem. O sucesso passa a ser o principal critério de reconhecimento. Aos poucos, substituímos a pergunta "qual é o sentido?" por outra bem diferente: "quanto custa?". E essas duas perguntas nunca significam a mesma coisa.
Quando isso acontece, até as pessoas correm o risco de se transformar em mercadorias. São valorizadas enquanto produzem, atraem atenção ou correspondem às expectativas. Basta deixarem de oferecer algum retorno para que sejam ignoradas ou descartadas. Não é difícil perceber essa mentalidade em muitos ambientes de trabalho, nas relações pessoais e até nas redes sociais, onde a quantidade de seguidores, curtidas e visualizações parece definir o valor de uma pessoa.
O Evangelho apresenta um caminho completamente diferente. Diante da multidão faminta, a reação espontânea dos discípulos é recorrer à lógica de mercado: recomendam enviar o povo embora para que vá às aldeias comprar comida. Jesus, porém, rompe esse raciocínio. Ele não enxerga um problema logístico nem uma massa anônima, mas pessoas cansadas, aflitas e necessitadas de cuidado. Seu primeiro gesto não é calcular custos, mas deixar-se mover pela compaixão e suplicar ao Pai. Os pães multiplicados são consequência desse olhar.
É significativo que a compaixão e a oração venham antes da distribuição do alimento. Jesus não reduz ninguém à sua necessidade material; ele reconhece a dignidade de cada pessoa antes mesmo de oferecer a solução para sua fome. No Reino de Deus, ninguém vale pelo que possui, pelo que produz ou pelo que pode retribuir.
É nesse horizonte que o convite de Isaías ganha toda a sua força. Deus oferece aquilo que nenhuma riqueza é capaz de comprar: sua graça, sua misericórdia, seu perdão e sua presença. Não porque essas realidades tenham pouco valor, mas precisamente porque possuem um valor tão grande que nenhum preço seria suficiente para adquiri-las.
Vivemos numa sociedade acostumada a colocar preço em quase tudo. Com isso, torna-se fácil esquecer que as coisas mais importantes da existência nunca estiveram à venda. O amor de uma família, a amizade verdadeira, a paz de consciência, a esperança renovada e a misericórdia de Deus pertencem a outra lógica.
O convite do profeta continua ecoando em nossos dias: "Vinde comprar sem dinheiro". Deus nos recorda que existe uma riqueza que não depende da conta bancária, uma mesa onde ninguém é excluído por não poder pagar e um amor que jamais será transformado em mercadoria. Reconhecer essa verdade é redescobrir que o essencial da vida não tem preço, porque sempre foi dom.
Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba