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Um único pedido

Publicado em 28 de julho de 2026 - 16:21:41

Se Deus aparecesse a você hoje e dissesse: "Faça um único pedido. Eu lhe concederei o que você escolher", o que você pediria? Essa pergunta pode parecer distante da nossa realidade, mas basta imaginar a cena para perceber como ela revela muito mais do que nossos desejos: ela revela as verdadeiras intenções do nosso coração.

Partindo das realidades humanas, alguns pediriam um grande prêmio da loteria. Outros escolheriam saúde, uma vida longa ou estabilidade financeira. Haveria quem desejasse resolver problemas familiares, alcançar sucesso profissional ou até ver derrotados aqueles que considera seus inimigos. São pedidos razoavelmente compreensíveis. Afinal, todos carregamos necessidades, medos, preocupações e sonhos. Mas, se pudéssemos fazer apenas um pedido, qual seria a escolha capaz de orientar todas as outras?

Essa não é uma pergunta imaginária; ela aparece na Sagrada Escritura. Quando Deus concede a Salomão a liberdade de pedir o que desejar, o jovem rei surpreende pela clareza de sua escolha. Não pede riquezas, nem poder, nem uma vida longa, muito menos a derrota dos seus adversários. Salomão pede um coração sábio, capaz de discernir entre o bem e o mal (cf. 1Rs 3,5.7-12). Sua resposta revela algo fundamental: antes de desejar possuir muitas coisas, ele deseja aprender a escolher corretamente. A verdadeira sabedoria não consiste em saber muito, mas em reconhecer o que realmente tem valor. Quem aprende a fazer a escolha fundamental acaba iluminando todas as demais escolhas da vida.

Essa mesma lógica aparece nas parábolas contadas por Jesus. Um homem encontra um tesouro escondido num campo, mas, curiosamente, o Evangelho não diz que ele o procurava. O tesouro simplesmente estava ali, esperando para ser descoberto. Em seguida, Jesus fala de um comerciante que procurava pérolas preciosas. Este, sim, estava em busca de algo valioso. As histórias começam de maneiras diferentes: um encontra sem procurar; o outro encontra justamente aquilo que buscava. No entanto, Jesus chama nossa atenção para um detalhe que facilmente passa despercebido: ambos tomam exatamente a mesma decisão, vendendo tudo o que possuem para adquirir o campo e a pérola. O centro das parábolas não está na forma como o encontro aconteceu, mas na resposta que ele provocou.

Na vida, acontece algo semelhante. Algumas pessoas chegam até Deus depois de uma longa busca, enquanto outras o encontram inesperadamente, por meio de uma dor, de uma perda, de uma amizade, de um retiro espiritual ou até de uma simples conversa. O caminho pode ser diferente para cada um; o que realmente importa é a decisão que nasce desse encontro. Vivemos numa época em que somos constantemente convidados a escolher. Escolhemos produtos, cursos, profissões, viagens, aplicativos, investimentos e até a próxima série a que vamos assistir. Nunca tivemos tantas possibilidades e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil responder à pergunta mais importante: qual é a escolha que dá sentido a todas as outras?

Sem uma escolha fundamental, a vida corre o risco de tornar-se apenas uma sucessão de decisões imediatas, guiadas pelas circunstâncias ou pelos desejos do momento. Quando tudo parece igualmente importante, nada realmente ocupa o lugar que deveria ocupar. É por isso que Salomão e as parábolas de Jesus se encontram. O rei pede sabedoria para discernir; os homens das parábolas demonstram esse discernimento na prática. Ambos compreenderam que existem bens pelos quais vale a pena reorganizar toda a existência.

Talvez alguém imagine que "vender tudo" seja apenas uma linguagem exagerada. Mas Jesus não está fazendo uma apologia da pobreza por si mesma. Ele está revelando uma verdade sobre o coração humano, pois todos nós organizamos a vida em torno daquilo que consideramos nosso maior tesouro. É essa escolha que determina nossas prioridades, nosso tempo, nossos esforços e até nossos relacionamentos.

No fundo, todos vendemos alguma coisa para comprar outra. Vendemos horas de descanso para construir uma carreira, abrimos mão de conforto para cuidar da família ou renunciamos a projetos pessoais em favor de quem amamos. A questão nunca foi se faremos renúncias; a verdadeira pergunta é: por qual tesouro estamos renunciando? Talvez, por isso, a pergunta inicial mereça ser feita novamente: se Deus lhe concedesse um único pedido, o que você pediria?

Porque, no final das contas, não é aquilo que dizemos valorizar que define quem somos, mas aquilo pelo qual estamos dispostos a entregar nossa vida. Salomão escolheu um coração sábio. Os homens das parábolas escolheram o tesouro e a pérola. Cada um, à sua maneira, fez a mesma descoberta: quando encontramos aquilo que realmente vale a pena, todas as outras escolhas encontram o seu lugar.

Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba

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