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A sabedoria de esperar

Publicado em 22 de julho de 2026 - 16:34:33


Vivemos na época da velocidade. Queremos a internet mais rápida, entregas imediatas, atendimento ágil e respostas instantâneas. Acompanhamos pelo celular o caminho do entregador, mudamos de fila no supermercado procurando ganhar alguns minutos e nos irritamos quando uma página demora alguns segundos para carregar. Nunca tivemos tantos recursos para economizar tempo e, paradoxalmente, nunca tivemos a sensação de que nos falta tanto tempo.

Essa pressa permanente não mudou apenas a maneira como vivemos. Mudou também a maneira como pensamos, como nos relacionamos e até como julgamos as pessoas. Acostumamo-nos a acreditar que tudo deve produzir resultados imediatos. Perdemos a capacidade de esperar e, mais profundamente ainda, perdemos a capacidade de suportar a espera.

Talvez seja justamente por isso que as parábolas de Jesus pareçam tão distantes da nossa realidade. Quando Ele fala do Reino de Deus, utiliza imagens que pertencem ao ritmo da natureza: uma semente lançada na terra, um pouco de fermento misturado à farinha, o trigo crescendo lentamente ao lado do joio. Nada acontece de forma instantânea. Tudo exige tempo, cuidado e perseverança.

Essas imagens parecem até provocar estranheza em nossos dias. Em uma cultura voltada para a máxima produtividade, a tendência é tolerar cada vez menos a coexistência com o imprevisto ou com a imperfeição. Na agricultura industrial, por exemplo, buscam-se técnicas e recursos cada vez mais precisos justamente para eliminar qualquer ameaça antes que ela prejudique a safra. Quem ainda prepara o pão começando pelo fermento, misturando a farinha, sovando a massa e esperando que ela cresça? É muito mais simples comprar o pão pronto. Quem conhece hoje a semente de uma alface ou de uma beterraba? A maioria de nós encontra os alimentos já limpos, embalados e organizados nas prateleiras do supermercado.

Não se trata de condenar a tecnologia ou os avanços do nosso tempo — afinal, a agilidade salva vidas, facilita o trabalho e aproxima distâncias. O problema surge quando a ansiedade do imediatismo passa a governar aquilo que exige maturação. Existem realidades que não obedecem ao relógio nem aos algoritmos. Não existe aplicativo capaz de apressar o amadurecimento de uma criança, a recuperação de um enfermo, a reconstrução de uma confiança quebrada ou a conversão de um coração.

A própria palavra "paciência" nos ajuda a compreender isso. Ela vem do latim patientia, derivada do verbo patior, que significa sofrer, suportar, aguentar, padecer. Ser paciente não significa apenas esperar. Significa permanecer firme enquanto a realidade ainda está em processo de transformação. Significa suportar o peso do tempo sem abandonar o bem que se espera alcançar.

Talvez seja essa uma das maiores dificuldades do homem contemporâneo. Não sabemos mais suportar processos. Queremos aprender rápido, crescer sem demora, resolver pendências em um instante, perdoar de imediato e, muitas vezes, até nos converter às pressas. No entanto, as coisas mais importantes da vida amadurecem lentamente. A amizade, a fidelidade, a educação dos filhos, a vida espiritual e o amor verdadeiro não florescem por decreto. Eles exigem tempo.

Essa impaciência acaba produzindo outro fenômeno muito característico do nosso tempo: os julgamentos apressados. Basta assistir a um vídeo de poucos segundos para formar uma opinião definitiva sobre alguém. Uma fotografia, uma manchete, uma frase retirada de contexto ou uma publicação nas redes sociais parecem suficientes para decidir quem merece aplausos e quem merece condenação. Perdemos a paciência até para conhecer as pessoas. Preferimos classificá-las rapidamente a compreendê-las profundamente.

É exatamente nesse ponto que a parábola do joio e do trigo revela toda a sua atualidade. Os empregados querem arrancar imediatamente aquilo que consideram prejudicial. O dono da plantação, porém, responde de maneira surpreendente: "Deixai crescer um e outro até a colheita." Não porque o joio seja bom, nem porque o mal deva ser tolerado indefinidamente, mas porque existe um bem maior que precisa ser preservado. A precipitação dos servos poderia destruir justamente aquilo que desejavam salvar.

Nas Sagradas Escrituras, o Livro da Sabedoria oferece uma das descrições mais belas da força de Deus: "Dominando tua própria força, julgas com clemência." Habitualmente pensamos que a força consiste em agir imediatamente. A Sabedoria apresenta outra perspectiva. O verdadeiro poder manifesta-se quando alguém é capaz de dominar a própria força para oferecer ao outro uma oportunidade de mudança. Deus não é lento porque seja indiferente ao mal. Ele é paciente porque acredita na possibilidade da conversão.

Isso não significa passividade. A paciência de Deus nunca é uma desculpa para permanecer no erro. Pelo contrário, cada novo dia recebido é um convite para recomeçar. Enquanto esperamos, Deus continua trabalhando silenciosamente em nosso coração. É isso que São Paulo recorda ao afirmar que o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza. Mesmo quando não percecemos, Deus continua realizando sua obra.

Talvez precisemos recuperar essa pedagogia da paciência. Não para voltar a um passado idealizado, nem para rejeitar os benefícios da modernidade, mas para recordar que existem processos que nenhuma tecnologia consegue substituir. Há sementes que precisam germinar, fermentos que precisam agir, trigo que precisa amadurecer e pessoas que precisam de tempo para mudar.

Vivemos num mundo fascinado pela velocidade. O Evangelho, porém, continua ensinando que as maiores obras de Deus acontecem quase sempre em silêncio e sem pressa. A conversão não nasce da ansiedade, mas da perseverança. O Reino de Deus cresce como a semente escondida na terra: lentamente, discretamente e quase imperceptivelmente. Quem perde a capacidade de esperar talvez acabe perdendo também a capacidade de reconhecer a ação de Deus na própria história.

Porque Deus nunca tem pressa. Não por falta de poder, mas porque o amor verdadeiro sempre respeita o tempo necessário para que uma vida possa florescer.

Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba

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