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Quando o álbum vira cinzas

Publicado em 8 de julho de 2026 - 09:14:13

Circulam nas redes sociais alguns vídeos que chamam a atenção e falam muito sobre o comportamento humano. Crianças rasgando seus álbuns de figurinhas da Copa, adultos arrancando enfeites das ruas, com gritos que tomam o lugar da festa. À primeira vista, a impressão é simples: dinheiro desperdiçado. Afinal, um álbum custa caro, completar uma coleção exige tempo e dedicação e, por outro lado, as decorações são o resultado do trabalho de muitas pessoas. Mas talvez a pergunta mais importante não seja quanto dinheiro foi perdido. A pergunta é outra: o que essas cenas ensinam às nossas crianças?

As vitórias e derrotas fazem parte da vida de toda pessoa. Nenhum atleta vence sempre e nenhuma equipe conquista todos os campeonatos, assim como nenhuma pessoa atravessa a sua existência sem experimentar perdas, fracassos e decepções. O futebol apenas torna visível uma realidade que acompanha toda a experiência humana. Mais cedo ou mais tarde, todos descobrimos que nem sempre as coisas acontecem como gostaríamos.

O problema não está em sentir tristeza diante de um fracasso. Quem ama um time de futebol, ou de outro esporte qualquer, sofre quando ele perde. O problema começa quando a frustração se transforma em violência e destruição. Rasgar um álbum ou destruir uma decoração não muda o resultado do jogo; apenas revela uma dificuldade muito maior, que é a incapacidade de lidar com aquilo que não podemos controlar.

É justamente nesse momento que as crianças aprendem, porque elas observam muito mais do que escutam. Crianças aprendem menos pelos discursos e muito mais pelos exemplos. Quando um adulto reage com gritos, agressividade ou violência diante de uma derrota esportiva, transmite uma mensagem silenciosa, mas poderosa, reforçando a ideia de que, quando a realidade nos contraria, destruir as coisas parece ser uma resposta aceitável.

Esse é, sem dúvida, um dos grandes desafios do nosso tempo. Vivemos numa cultura que valoriza o sucesso imediato, a satisfação instantânea e a vitória a qualquer custo. Pouco se ensina sobre perseverança, paciência, autocontrole e esperança. Aos poucos, perde-se a capacidade de suportar pequenas frustrações e, quando elas chegam, qualquer contratempo parece insuportável.

A educação, porém, nasce exatamente no caminho contrário. Pais, mães, educadores e toda a sociedade têm a missão de ensinar que perder não significa fracassar como pessoa. Significa apenas reconhecer que ainda existe um amanhã, um próximo jogo, um próximo campeonato. Quem aprende a perder com serenidade também aprende a vencer com humildade. As duas virtudes caminham juntas e precisam ser ensinadas com atitudes.

O Evangelho apresenta uma lógica diferente daquela que tantas vezes domina o mundo. Jesus nunca prometeu uma vida sem derrotas. Pelo contrário, ensinou que a cruz faz parte do caminho dos discípulos. Antes da manhã da ressurreição, houve a noite da paixão. Antes da vitória definitiva sobre a morte, houve lágrimas, abandono e aparente fracasso. A esperança cristã não elimina a dor; ela ensina a atravessar os sofrimentos sem perder a dignidade.

Talvez seja essa a maior lição que um simples álbum de figurinhas pode nos oferecer. O papel rasgado pode ser comprado outra vez e a decoração pode ser refeita. Mas o exemplo deixado diante das crianças permanece por muitos anos, porque elas não recordarão apenas o resultado daquele jogo. As crianças vão recordar, sobretudo, como os adultos reagiram quando a vida disse "não". No fim das contas, o maior campeonato não acontece dentro de um estádio, acontece dentro do coração humano. Porque é ali que se decide se a derrota vai produzir violência ou maturidade, revolta ou crescimento, desespero ou esperança. E essa é uma vitória que vale muito mais do que qualquer taça.

Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba
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