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Quem é mais católico?

Publicado em 29 de junho de 2026 - 12:02:01

Há perguntas que parecem simples, mas escondem um equívoco. Uma delas aparece com frequência, ainda que nem sempre seja pronunciada em voz alta: quem é mais católico?

Em diferentes ambientes da vida da Igreja, surgem critérios para responder a essa pergunta. Alguns acreditam que a verdadeira identidade católica se manifesta principalmente na liturgia, na forma de celebrar ou nas vestes utilizadas. Outros a identificam quase exclusivamente pelo compromisso social, pela defesa dos pobres ou pela atuação em determinadas pastorais. Há quem considere mais católicos aqueles que conhecem profundamente a doutrina, enquanto outros valorizam, sobretudo, a experiência espiritual, os movimentos ou as novas comunidades.

Todos esses aspectos guardam o seu valor. O problema começa quando um deles passa a ser considerado a medida da verdadeira catolicidade. Sem perceber, substituímos a comunhão pela comparação e passamos a olhar os irmãos não como membros do mesmo Corpo Místico de Cristo, mas como representantes de sensibilidades diferentes.

Curiosamente, essa lógica não é muito diferente daquela que encontramos na sociedade, nas ideologias políticas. Também ali as pessoas são classificadas por grupos, posições e identidades. A pergunta deixa de ser "Quem somos?" para tornar-se "De que lado estamos?".

Entretanto, a palavra "católico" aponta exatamente para a direção oposta: ela significa universal. A catolicidade nunca foi sobre reunir pessoas iguais, mas sobre manter unidas pessoas diferentes pela mesma fé em Jesus Cristo. A Igreja não é uma comunidade formada por pessoas que pensam exatamente da mesma maneira, que possuem a mesma espiritualidade ou que expressam a fé pelos mesmos caminhos. A Igreja é o lugar onde a diversidade encontra sua unidade em Cristo. Poucas celebrações exprimem essa verdade com tanta beleza quanto a Solenidade de São Pedro e São Paulo.

Se utilizássemos apenas as categorias do nosso tempo, seria fácil transformar os dois Apóstolos em representantes de correntes opostas. Pedro caminhou com Jesus desde o início, recebeu as chaves do Reino e tornou-se a referência visível da unidade da Igreja. Paulo, por sua vez, levou o Evangelho aos gentios, dialogou com culturas diferentes e abriu novos caminhos para a missão.

Alguém poderia imaginar aqui dois grupos dentro da Igreja nascente. Uns levantariam a bandeira de Pedro; outros defenderiam a iniciativa de Paulo. Uns afirmariam possuir maior fidelidade à tradição apostólica, enquanto outros reivindicariam o dinamismo missionário. No entanto, a Igreja nunca colocou Pedro contra Paulo. Ao contrário, celebra ambos na mesma solenidade.

Essa escolha da liturgia possui uma extraordinária força e clareza catequética. A Igreja não pede que escolhamos entre Pedro e Paulo, porque ambos pertencem a Cristo. As diferenças não desaparecem, mas deixam de ser motivo de divisão; permanecem como riquezas colocadas a serviço da mesma missão. Talvez seja justamente aqui que reside uma das maiores tentações do nosso tempo: reduzir a catolicidade às nossas próprias preferências. Quando isso acontece, deixamos de contemplar a beleza do todo e passamos a defender apenas a parte com a qual mais nos identificamos.

A consequência é quase inevitável. Em vez de perguntar como podemos servir melhor à Igreja, começamos a perguntar quem representa a Igreja verdadeira. Em vez de reconhecer os diferentes dons suscitados pelo Espírito Santo, passamos a desconfiar daqueles que vivem a fé de modo diferente do nosso. O Evangelho conduz o discípulo para outro caminho.

Em Cesareia de Filipe, Jesus não pergunta aos discípulos qual sensibilidade eclesial preferem, nem qual projeto pastoral consideram mais importante. Também não lhes pergunta quem é o mais fiel entre eles. A única pergunta é: "E vós, quem dizeis que eu sou?". Essa continua sendo a pergunta decisiva e muito atual.

Quando Cristo ocupa verdadeiramente o centro da vida cristã, a necessidade de provar quem é "mais católico" simplesmente desaparece. Descobrimos que a identidade da Igreja não nasce de uma espiritualidade específica, de uma sensibilidade litúrgica ou de uma determinada ação pastoral. Ela nasce da profissão de fé naquele que Pedro reconheceu como "o Cristo, o Filho do Deus vivo".

A verdadeira catolicidade não consiste em tornar todos iguais. Consiste em permitir que pessoas diferentes permaneçam unidas na mesma fé, alimentadas pelos mesmos sacramentos e enviadas para anunciar o mesmo Evangelho. Pedro continua segurando as chaves da comunhão e Paulo continua empunhando a espada da Palavra. Os símbolos são diferentes, as missões são diferentes e até mesmo os temperamentos são diferentes. Entretanto, ambos permanecem lado a lado, porque a Igreja nunca foi edificada sobre preferências pessoais, mas sobre Jesus Cristo.

Por isso, talvez a pergunta inicial devesse ser abandonada. Em vez de perguntar quem é mais católico, seria melhor perguntar se aquilo que fazemos, pensamos e vivemos nos aproxima cada vez mais de Cristo e fortalece a comunhão da Igreja. Afinal, ninguém se torna mais católico por ocupar um lado. Torna-se verdadeiramente católico quando aprende, com Pedro e Paulo, a colocar Cristo acima das próprias preferências e a reconhecer como irmão aquele que, embora diferente, professa a mesma fé no Filho do Deus vivo.

Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba

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