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Olhos abertos, coração distraído

Publicado em 17 de junho de 2026 - 11:30:11

Nos últimos dias, uma tragédia ganhou espaço nos noticiários e nas redes sociais. Uma jovem participava de uma atividade radical e, por uma falha gravíssima, foi lançada sem que o equipamento principal de segurança estivesse conectado. O fato foi registrado por diversos celulares, de vários ângulos. Havia muitas pessoas observando, muitas lentes apontadas para a cena, mas ninguém percebeu o que realmente importava.

Talvez esse seja um retrato doloroso do nosso tempo. Nunca produzimos tantas imagens e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenhamos enxergado tão pouco. Vivemos cercados por telas, registros, fotografias e vídeos. Capturamos momentos, mas nem sempre percebemos a realidade. Estamos presentes fisicamente, mas interiormente ausentes. Olhamos para tudo, arquivamos tudo na nuvem, mas enxergamos cada vez menos.

Existe uma diferença profunda entre ver e perceber. Ver é uma função dos olhos, enquanto perceber é uma atitude do coração. Ver é registrar uma imagem; perceber é compreender o que está diante de nós. Muitas vezes, estamos mais preocupados em fazer uma foto ou um vídeo do que em participar do acontecimento; mais atentos ao enquadramento do que à presença pessoal; mais interessados em publicar algo do que em compreender o momento.

O Evangelho apresenta Jesus de modo completamente diferente quando diz que, ao ver as multidões, Ele sentiu compaixão, porque estavam cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor. Jesus não viu apenas uma massa de pessoas, nem números ou estatísticas. Ele enxergou rostos dentro da multidão, não uma coletividade anônima. Percebeu dores que ninguém contava, sofrimentos que ninguém registrava, pesos que ninguém compartilhava.

Enquanto muitos observavam apenas o exterior, Jesus enxergava o interior das pessoas. Via o cego abandonado à beira do caminho, a viúva que chorava o filho morto, o leproso excluído. Viu o publicano desprezado e a mulher que sofria em silêncio. Seu olhar não parava na superfície, mas alcançava a pessoa.

Talvez a grande pobreza do nosso tempo não seja a falta de informação, mas a falta de atenção. Sabemos de tudo o que acontece no mundo, mas nem sempre percebemos o que acontece ao nosso lado. Conhecemos notícias de lugares distantes, mas não enxergamos o sofrimento de quem mora na mesma casa. Vemos milhares de imagens por dia, mas deixamos escapar os sinais de cansaço, tristeza e solidão daqueles que convivem conosco.

O discípulo de Cristo é chamado a essa percepção. Não basta olhar as pessoas, é preciso enxergá-las; não basta notar sua presença, é preciso perceber suas lutas; não basta registrar acontecimentos, é preciso participar da vida sofrida de quem está nas periferias existenciais. O cristão não é alguém que coleciona imagens, mas alguém que cultiva a compaixão.

Num mundo que olha cada vez mais para as telas, Jesus continua nos convidando a olhar para as pessoas. Porque os cansados e abatidos ainda estão entre nós. A diferença é que muitos continuam olhando, e poucos percebendo.

Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba

 

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