Colunas

  • Em Foco
  • Colunas
  • O céu não descartou a humanidade

O céu não descartou a humanidade

Publicado em 18 de maio de 2026 - 09:56:36

A cultura contemporânea nos acostumou ao uso de descartáveis. São guardanapos de papel, pratos plásticos, talheres usados por poucos minutos e depois jogados no lixo. Em muitas ocasiões, aquilo que embrulha o presente dura menos do que a emoção de recebê-lo. Caixas de papel ou madeira, com aparência sofisticada, laços, papel de seda, embalagens plásticas cuidadosamente preparadas para encantar — tudo isso acaba abandonado poucas horas depois. Criamos uma sociedade em que muitas coisas já nascem destinadas ao lixo. O problema é que, pouco a pouco, essa lógica deixa de se aplicar apenas aos objetos e passa a moldar também nossa maneira de olhar a vida, as relações e até o próprio ser humano.

Quando tudo se torna provisório e descartável, corre-se o risco de imaginar que também as pessoas possam ser avaliadas pela utilidade que oferecem. Aquilo que não produz, não encanta ou já não corresponde às expectativas parece perder valor. A cultura do descarte, tantas vezes denunciada pelo Papa Francisco, não elimina apenas objetos; ela cria uma mentalidade em que o frágil se torna incômodo, o dependente passa a ser visto como um peso e o sofrimento quase perde o sentido. Nesse contexto, as relações afetivas se fragilizam, os compromissos se tornam temporários e até a experiência religiosa pode ser reduzida à busca de emoções rápidas e superficiais.

O mistério da Encarnação revela exatamente o contrário dessa lógica. O Filho de Deus não assumiu a natureza humana como quem utiliza um instrumento provisório. Em Jesus Cristo, Deus entrou verdadeiramente na história humana, assumindo nossa carne, nossas limitações, o cansaço, a fome, a dor e até a experiência da morte. A humanidade de Cristo não foi uma aparência passageira, nem uma veste descartável usada apenas durante sua missão terrena. Ao assumir a condição humana, Deus revelou a dignidade profunda da nossa existência.

É justamente o mistério da Ascensão do Senhor que leva essa verdade ao seu ponto mais alto. Jesus sobe aos céus levando consigo a natureza humana. O Ressuscitado não abandonou o corpo, não rejeitou as marcas da paixão nem descartou aquilo que assumiu na Encarnação. As chagas permaneceram e foram glorificadas. Isso significa que a natureza humana entrou no céu, em Cristo. Aquilo que o mundo tantas vezes considera frágil, limitado e descartável foi levado pelo próprio Senhor para junto do Pai.

Há aqui uma verdade profundamente consoladora. O cristianismo não anuncia uma salvação que despreza o humano, mas uma redenção que eleva a humanidade. A Ascensão mostra que Deus não rejeita nossa história, nossas feridas e nossas lágrimas. Em Cristo, até as marcas da paixão permanecem diante do Pai como sinal eterno de amor. Enquanto a lógica do mundo ensina a usar e descartar, o Evangelho revela um Deus que assume, permanece e leva consigo aquilo que ama.

Essa verdade traz consequências profundas para a vida cristã. Ninguém pode ser considerado descartável: nem o idoso marcado pela fragilidade, nem o doente limitado pela enfermidade, nem o pobre esquecido pela sociedade, nem o nascituro rejeitado antes mesmo de nascer, nem aquele que caiu no pecado e busca recomeçar. A Ascensão do Senhor proclama que a dignidade humana não depende da eficiência, da aparência ou da utilidade. Nossa dignidade nasce do fato de nossa humanidade ter sido assumida pelo próprio Cristo.

Talvez um dos maiores dramas humanos de hoje seja justamente o medo da permanência. Vivemos cercados pela tentação do provisório: relações temporárias, compromissos passageiros e uma fé superficial. No entanto, o amor verdadeiro nunca é descartável. A cruz revela a fidelidade de Deus, e a Ascensão confirma que essa fidelidade permanece na eternidade. Cristo não abandonou a humanidade após a dor e a paixão. Ele levou consigo, para sempre, a carne marcada pelo amor.

Em um mundo que aprende, a cada dia, a descartar pessoas, a Ascensão do Senhor anuncia uma esperança diferente: para Deus, a humanidade jamais será um objeto de uso passageiro. O céu conserva para sempre as marcas daquele amor que assumiu nossa condição humana até o fim.

Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba

Anunciantes
Em Foco - Diocese de Piracicaba
Diocese de Piracicaba

Diocese de Piracicaba

O site Em Foco é o meio de comunicação oficial da Diocese de Piracicaba

Assessoria de Comunicação

Segunda a Sexta das 8h30 às 11h30 e das 13h30 às 17h30

Diocese de Piracicaba

Av. Independência, 1146 – Bairro Higienópolis - Cep: 13.419-155 – Piracicaba-SP - Fone: 19 2106-7556
Desenvolvido por index soluções