Quando, naquele domingo de Páscoa, vimos Sua Santidade, o Papa Francisco, aparecer na loggia central da Basílica de São Pedro, todos fomos tocados pelo seu estado naquele momento. Foi vontade do Santo Padre aparecer aos fiéis naquela manhã para, mesmo com dificuldade e com grande esforço, realizar a tradicional bênção Urbi et Orbi por ocasião da Páscoa.
Ainda com essa imagem viva em nossa memória, fomos surpreendidos no dia seguinte, 21 de abril, com o anúncio de sua morte.
Ao recordarmos o primeiro ano de falecimento e, consequentemente, o fim do pontificado daquele que foi buscado “quase no fim do mundo” para ser o Bispo de Roma, somos convidados a refletir sobre a forma como seu Pontificado foi recebido por nós, em memória de um ministério que marcou profundamente a vida da Igreja contemporânea.
Desde o início de seu papado, várias foram as atitudes, gestos e palavras que repercutiram dentro e fora da Igreja. O primeiro papa latino-americano conquistou não apenas o coração dos católicos e daqueles que se encontravam mais afastados, mas também despertou a admiração de pessoas que se comportavam indiferentes à Igreja.
É seguro dizer que seu Pontificado transcorreu simultaneamente ao desenvolvimento acelerado e à crescente dinamicidade dos meios de comunicação. Ao celebrar cotidianamente a Eucaristia na Capela da Casa Santa Marta, lugar onde escolheu morar, rapidamente se tornavam públicas as palavras proferidas em suas homilias diárias. Desse modo, foi possível acompanhar quase em tempo real muitos dos gestos e atitudes que caracterizaram o papado franciscano, o que acabou por conferir ao seu ministério uma visibilidade inédita em comparação com pontificados anteriores.
Contudo, essa mesma abundância de informações trouxe também um risco evidente: o “selecionar” apenas aquilo que nos agradava. Na ampla divulgação de suas palavras e gestos, muitas vezes se notava uma certa predileção por aquilo que fomos capazes de conhecer, guardar ou comentar.
Em muitos aspectos, é possível reconhecer no Papa Francisco um verdadeiro reformador. Modificou o processo de nulidade matrimonial; deu continuidade e aprofundou mudanças relativas aos delitos cometidos por ministros ordenados; proporcionou e incentivou novas iniciativas sociais; dirigiu palavras duras à Cúria Romana e, não poucas vezes, também aos próprios sacerdotes. Falas essas que frequentemente encontraram grande repercussão na grande mídia, mas também em nossas redes sociais e até mesmo em conversas pastorais cotidianas, por vezes marcadas mais pela repetição de frases de impacto do que por uma reflexão mais profunda sobre seu significado.
No entanto, não podemos esquecer um dado fundamental: a Igreja “é como que o sacramento, ou sinal, e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (cf. Lumen Gentium, 1). A Igreja é composta por todos os batizados, e não exclusivamente pelos ministros ordenados ou pelos religiosos e religiosas.
Por isso, ao olharmos para aquilo que foi iniciado pelo Papa Francisco, somos também provocados a uma pergunta incômoda, porém necessária: será que as mudanças propostas durante seu Pontificado dizem respeito apenas à hierarquia da Igreja?
O famoso discurso sobre os “pecados da Cúria Romana”, proferido ainda nos primeiros anos de seu pontificado, em dezembro de 2014, não poderia igualmente ser lido e refletido por nossos agentes, coordenadores e lideranças pastorais?
Do mesmo modo como ampliou o Colégio Cardinalício, criando cardeais provenientes de lugares distantes e de Igrejas locais menores, não estaria também apontando e nos convidando a ampliar nossos próprios horizontes pastorais, acolhendo novas realidades e novas pessoas em nossas pastorais?
Em alguns casos, a linguagem pastoral de proximidade acabou sendo instrumentalizada como se significasse relativizar princípios que não pertencem apenas à disciplina eclesiástica, mas que se enraízam na própria Tradição e na Revelação.
Até que ponto o desejo por uma Igreja mais simples e acolhedora não foi, em certos contextos, interpretado de modo equivocado como uma negação de elementos fundamentais e basilares da fé cristã?
Muitos foram os momentos em que o Papa Francisco se colocou e se dirigiu a aqueles que se encontravam afastados. Porém sempre enfatizando a distinção entre pecado e pecador. Afirmando que todos têm a possibilidade de alcançar a reconciliação com Deus, mas para isso é necessário que o “enfermo reconheça que precisa do médico” (Catequese, 20 de abril de 2016). Em outras palavras, primeiro é preciso reconhecer e assumir que erramos, que pecamos, para então buscar a mudança e a conversão. Acolher o pecador nunca pode significar relativizar o pecado.
O pontificado do Papa Francisco produziu, e continuará a produzir frutos na vida da Igreja. As sementes lançadas ao longo de seu ministério ainda estão em processo de germinação e desenvolvimento, manifestando gradualmente seus efeitos na vida das comunidades, na organização da Igreja e na própria compreensão de sua missão no mundo contemporâneo.
Nesse sentido, ao olharmos para o caminho já percorrido, é possível reconhecer que parte desse legado começa a se tornar visível. Entre os diversos sinais que apontam para a continuidade e para o amadurecimento desse percurso eclesial, um desses frutos já foi colhido: a eleição do Cardeal Prevost.
Pe. Mateus Kerches Nicolucci
É presbítero da Diocese de Piracicaba e atualmente realiza estudos em Roma, na Itália