Vivemos em um tempo em que aprendemos a desconfiar das notícias. Vídeos montados, imagens manipuladas, histórias que parecem verdadeiras, mas não têm raiz em fato algum. Diante de tantas versões, somos obrigados a perguntar: em quem acreditar? Esse clima de suspeita atinge também a fé. Não faltam interpretações que tentam reduzir a Ressurreição de Jesus a uma ideia bonita, a uma lembrança coletiva, a um símbolo de esperança. Como se tudo não passasse de uma construção para consolar corações aflitos.
O Evangelho de São João (Jo 20,19-31) nos mostra que essa dúvida não é privilégio do nosso tempo. Tomé representa muitos de nós quando pede sinais concretos, quando quer tocar as chagas e verificar por si mesmo. Ele não se contenta os relatos dos outros discípulos. Sua resistência revela uma pergunta séria: a Ressurreição é um fato? A resposta que o Senhor oferece não é um argumento teórico, mas um encontro. O Ressuscitado se coloca no meio dos discípulos, mostra as feridas, fala, comunica a paz e sopra o Espírito. As chagas não são um detalhe: elas comprovam que o Crucificado é o Ressuscitado diante deles. É o mesmo Jesus, agora vivo para sempre.
Também a transformação dos discípulos é um sinal decisivo. Os mesmos que fugiram com medo da cruz depois enfrentaram prisões, perseguições e a morte para anunciar aquilo que viram e ouviram. Ideias não mudam assim a vida de ninguém. Uma ideologia pode ser discutida, adaptada, abandonada. O encontro com o Ressuscitado, ao contrário, reorienta a existência. O medo se torna missão, o fechamento se abre em anúncio, a dúvida dá lugar à confissão de fé de São Tomé: “Meu Senhor e meu Deus”.
É essa certeza que sustenta a Igreja ao longo da história. Nós não vimos Jesus com os olhos do corpo, mas acolhemos a palavra daqueles que O encontraram e damos crédito ao testemunho que chegou até nós. Bem-aventurados, diz o Senhor, os que creem sem ter visto. Essa bem-aventurança não é um convite à credulidade ingênua, mas à confiança em uma verdade que se comprova na vida. Quando a fé não fica apenas nas palavras, mas gera perdão, recomeço, serviço, coragem em meio às provas, ela manifesta que o Ressuscitado está agindo.
Anunciar, hoje, que Cristo está vivo não é repetir uma fórmula antiga. É reconhecer a sua presença no meio de nós: na Palavra que ilumina, na Eucaristia que alimenta, na comunidade que reza e serve, no irmão ferido em quem Ele mesmo se deixa encontrar. Cada vez que a paz vence o ódio, que alguém arrisca amar sem garantias, que a esperança se levanta em meio ao sofrimento, a Páscoa se torna visível. Não se trata de fugir das perguntas, mas de deixar que a fé nos introduza num modo novo de olhar a realidade.
Em um mundo cansado de promessas vazias e fake news, a Ressurreição permanece como a grande notícia verdadeira. O túmulo está vazio, não só porque o testemunho persiste, mas também porque o Senhor está vivo e caminha conosco. Ele não nos abandona. Colocando-se no meio da comunidade, continua oferecendo a sua paz e convidando cada um a passar da descrença à confiança, da paralisia à missão. Crer no Ressuscitado é deixar-se encontrar por Ele e permitir que a nossa vida, pouco a pouco, se torne também prova de que Ele está, de fato, no meio de nós.
Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba