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O Santo Sepulcro está fechado, novamente

Publicado em 31 de março de 2026 - 17:21:27

Nos últimos dias, notícias e imagens que circulam nas redes sociais chamaram a atenção do mundo ao anunciar o fechamento do Santo Sepulcro, em Jerusalém, em razão da guerra que persiste na região do Oriente Médio. O lugar mais sagrado da cristandade, onde a tradição situa a morte, a sepultura e a ressurreição de Jesus, encontra-se, mais uma vez na história, com suas portas fechadas. O que para muitos pode parecer apenas um fato político ou circunstancial, para o olhar da fé torna-se profundamente simbólico: o túmulo está fechado, como naquele primeiro dia.

O Evangelho relata que, após a morte de Jesus, seu corpo foi colocado no sepulcro, e uma grande pedra foi rolada para mantê-lo fechado. Além disso, guardas foram posicionados para garantir que nada alterasse aquela situação (cf. Mt 27,62-66). Havia ali uma tentativa humana de encerrar definitivamente uma história que parecia ter chegado ao fim. A morte parecia ter a última palavra. O túmulo fechado era o sinal visível de um projeto interrompido, de uma esperança sepultada.

Há algo profundamente atual nesse acontecimento. Também hoje, em diferentes níveis, a humanidade continua tentando “fechar túmulos”. Fecham-se horizontes quando a violência se impõe sobre a paz e o diálogo. Fecham-se caminhos quando o sofrimento parece não ter sentido. Fecham-se corações quando a fé se enfraquece diante das incertezas da vida. O túmulo fechado não é apenas uma realidade do passado — ele se repete em tantas situações em que o ser humano acredita que não há mais saída.

No entanto, a Páscoa nos revela que a lógica de Deus não se submete às evidências humanas. Aquela pedra, cuidadosamente colocada e vigiada, não foi capaz de impedir a ação divina. O sepulcro fechado não conseguiu conter a vida. O que parecia definitivo revelou-se provisório. O que parecia ser o fim tornou-se um novo começo. Deus não apenas abriu o túmulo — Ele transformou o próprio sentido da morte.

Nesse contexto, causa estranheza quando discursos contemporâneos tentam interpretar a figura de Jesus a partir de categorias de poder ou dominação. Recentemente, o primeiro-ministro de Israel recorreu a uma comparação entre Jesus e Gengis Khan, aproximando realidades profundamente distintas. Essa leitura revela a dificuldade humana de compreender a lógica do Reino de Deus. Enquanto a história registra líderes que se impuseram pela força, Cristo se revela na entrega, no silêncio da cruz e na aparente derrota do sepulcro. A tentativa de interpretar Jesus segundo critérios de poder acaba por “fechar o túmulo”, reduzindo o mistério da salvação a categorias meramente humanas.

A ressurreição de Jesus não foi simplesmente um evento extraordinário — foi a ruptura definitiva com toda tentativa de aprisionar a esperança. A pedra rolada e o túmulo vazio não são apenas sinais históricos, mas anúncios de que nenhuma realidade humana, por mais dura que seja, pode impedir o agir de Deus. Nem a morte, nem o medo, nem a violência têm a última palavra.

Diante disso, o fechamento do Santo Sepulcro em nossos dias, embora carregado de dor e tensão, pode ser lido à luz da fé como um convite à confiança. Mesmo quando as portas se fecham, Deus continua agindo. Mesmo quando tudo parece imobilizado, a vida encontra um caminho. A Páscoa nos ensina que Deus age, muitas vezes, precisamente quando tudo parece terminado.

Jesus ressuscitou. Esta é a certeza que sustentou os discípulos ontem e continua a sustentar a Igreja hoje. Não se trata de uma ideia ou de um consolo simbólico, mas de uma verdade que atravessa a história e transforma a existência. O túmulo está vazio. A pedra foi removida. A vida venceu. Essa vitória reacende, também em nosso tempo, a esperança — uma esperança que não se pode fechar, conter ou silenciar.

Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba
Anunciantes
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