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Deus não se atrasa

Publicado em 26 de março de 2026 - 16:46:03

Nosso dia a dia é regido por relógios, compromissos, rotinas e prazos. Quando algo foge do previsto, chamamos de “atraso”. Às vezes, é o trânsito, o despertador que não tocou ou simplesmente nossa desorganização. Com o tempo, acabamos nos acostumando à falta de pontualidade e achamos normal chegar sempre depois da hora, inclusive em relação àquilo que deveria ser essencial em nossa vida, ou seja, tudo o que nos aproxima de Deus. Como se não bastasse, muitas vezes caímos na tentação de querer que o Senhor se adapte aos nossos tempos e prazos, esperando respostas imediatas e soluções milagrosas.

No Evangelho que narra a ressurreição de Lázaro (Jo 11,1-45), somos apresentados a uma cena que, à primeira vista, parece estranha. Marta e Maria mandam avisar que o amigo de Jesus está muito doente. O Senhor conhece a família, ama aquelas pessoas, sabe da gravidade da situação e, no entanto, permanece ainda algum tempo onde estava. Quando decide partir, Lázaro já está morto. Humanamente, parece tarde demais. Por isso, o lamento e a queixa das irmãs: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido”. Há, nessas palavras, uma dor sincera, mas também a tentação de encaixar Deus em nossos relógios e concluir que Ele chegou atrasado.

O texto bíblico, porém, quer nos mostrar o oposto: Deus não se atrasa. Ele não é indiferente ao sofrimento, nem brinca com a dor humana. Prova disso é que Jesus chora diante do túmulo de Lázaro; o pranto do Senhor revela a verdade do amor, não é um teatro. Não há fingimento. E é justamente ali, quando tudo parece perdido, que a presença do Senhor se torna vida nova para aquela família. A demora, que parecia descuido, torna-se ocasião para um reavivamento real da fé. Não se trata de devolver a vida a um amigo, mas de revelar que Jesus é a Ressurreição e a Vida. A aparente ausência de Deus prepara o coração para um encontro mais profundo e significativo com Ele.

É mais fácil ser fiel quando tudo está bem. Mas nós também atravessamos experiências em que nos perguntamos, em silêncio ou em voz alta: “Senhor, onde estavas quando isso aconteceu?”. A doença que chegou, a perda inesperada, um projeto que desmorona, uma oração que parece não ser ouvida. Se nesses momentos não somos capazes de reconhecer a presença de Deus e enxergamos apenas seu suposto “atraso”, corremos o risco de reduzir a fé à busca de soluções e milagres imediatos. A fé precisa ser amadurecida nas provações. É quando todos os nossos recursos se esgotam que podemos aprender a confiar no “relógio de Deus”, cujos ponteiros sempre apontam para a nossa Salvação.

As palavras de Jesus diante do túmulo de Lázaro devem ressoar hoje para cada um de nós: “Tirai a pedra” e “Lázaro, vem para fora!”. Há pedras que nós colocamos – do pecado, da desesperança – e que vão fechando nossa vida numa espécie de túmulo interior. Há situações que nos mantêm paralisados em histórias antigas, com feridas que parecem definitivas. A ação de Deus não ignora essas realidades, mas nos chama a agir. Hoje, como Lázaro, também somos chamados pelo nome para sairmos do sepulcro.

Em meio às nossas dores, não devemos buscar em Deus justificativas para as dificuldades ou soluções mágicas. Precisamos, sim, compreender que Jesus está conosco em todos os momentos e dá sentido novo a tudo, inclusive ao sofrimento. Ele não apaga a história, mas a atravessa com sua presença e, quando tudo parece irreversível, continua a dizer: “Vem para fora”. Sair do túmulo do pecado e da falta de esperança é dar um passo em direção a Deus, para que a graça nos encontre mesmo naquilo que julgamos não ter mais volta. O Senhor não se atrasa. Ele nos chama sempre ao Caminho, à Verdade e à Vida.

Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba

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