Há experiências na vida que mostram, com clareza, como o olhar das pessoas pode ficar preso ao passado. Não é raro alguém passar por uma mudança profunda: abandona um vício, reconstrói a família, retoma a fé ou reorganiza a própria história. A transformação é real e visível. Ainda assim, muitos continuam a ver essa pessoa com os olhos de antes. A memória do erro passado parece mais forte que os sinais de renovação. Assim, mesmo diante de uma vida mudada, o rótulo antigo persiste. A pessoa mudou, mas o olhar dos outros não.
Essa experiência revela algo bem humano. Muitas vezes, não vemos o outro pelo que ele é hoje, mas pelo que foi um dia. O passado vira uma lente que distorce o julgamento. O resultado é um tipo de preconceito – não só uma opinião precipitada, mas uma cegueira moral. Quem se guia por ele ignora a realidade presente e fica preso a uma imagem velha. Em vez de reconhecer a conversão e o crescimento, repete um julgamento que já não faz sentido.
Essa dinâmica aparece com clareza no Evangelho da cura do cego de nascença (Jo 9,1-41). Jesus devolve a visão a um homem que nunca havia visto a luz. O fato merecia alegria, admiração e gratidão. Mas muitos questionaram o milagre, duvidaram e até interrogaram o curado. O problema não estava mais nos olhos do cego, e sim no coração de quem se recusava a ver a ação de Deus.
O relato evangélico ilustra uma verdade que atravessa a história humana. A cegueira mais grave não é física, mas interior: a incapacidade de reconhecer a verdade quando ela aparece. O preconceito surge desse fechamento. Quando alguém se fixa em uma ideia antiga e ignora o que realmente acontece, o olhar fica rígido. Ele não acolhe a novidade da realidade.
Sob essa luz, o preconceito é uma cegueira espiritual. Ele bloqueia o reconhecimento das mudanças nas pessoas, obscurece a verdade e cria barreiras no encontro humano. Em vez de se abrir à surpresa da graça, prende o indivíduo em interpretações velhas. Assim, distorce a visão da realidade e empobrece a convivência social.
A tradição cristã lembra que ninguém está condenado a ficar igual para sempre. A conversão e a transformação estão no centro da fé cristã. O Evangelho conta histórias de vidas que mudam ao encontrar Cristo. Reconhecer isso é admitir que o ser humano é maior que seus erros passados.
A superação do preconceito começa ao aprender a olhar de novo. Observar com atenção e humildade o que está à frente. Esse olhar não ignora o passado, mas não o deixa definir o valor de uma pessoa. Ele vê que a vida humana está aberta à mudança – e que Deus realiza o impossível aos olhos humanos.
Por isso, a cura do cego de nascença é uma imagem poderosa. Vai além do milagre físico: é um convite a mudar como vemos o mundo e as pessoas. A verdadeira visão surge quando o olhar se liberta do preconceito e se abre à ação de Deus na história.
Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba