A mentira acompanha a história humana desde suas origens. Hoje, ela ganhou um nome moderno e tecnológico: fake news. A expressão parece recente, ligada às redes sociais, à manipulação de massas e aos conflitos políticos, mas a realidade que ela designa é antiga como o próprio coração humano. Fake news é uma informação falsa apresentada como verdadeira, com a intenção de confundir, seduzir ou manipular. Não se trata apenas de um erro inocente, mas de uma distorção consciente da realidade, que altera a percepção e influencia decisões. Em seu núcleo está a substituição da verdade por uma narrativa conveniente.
Se traduzirmos em linguagem atual a dinâmica da primeira mentira narrada na Bíblia, poderíamos dizer que no livro do Gênesis encontramos o que poderia ser a "primeira fake news" da história humana.. No diálogo entre o diabo e a mulher encontramos a estrutura clássica da mentira. A serpente não começa negando frontalmente a verdade de Deus, mas a distorce. Ela semeia a dúvida, relativiza a Palavra divina e apresenta uma versão alternativa dos fatos. Afirma que Deus estaria escondendo algo bom, que a proibição seria um limite injusto e que a desobediência traria plenitude. A grande fake news não foi apenas dizer que não morreriam, mas insinuar que Deus não era confiável. A mentira nasce como desconfiança plantada no coração.
Esse mesmo diálogo reaparece na tentação de Jesus no deserto. O tentador utiliza a Escritura, mas a manipula. Propõe atalhos, oferece poder sem cruz, pão sem obediência, glória sem fidelidade. É a mesma lógica antiga com roupagem nova. A estratégia continua sendo apresentar uma verdade parcial, descontextualizada, para conduzir a uma decisão contrária ao projeto de Deus. Jesus responde com a verdade inteira, recolocando cada proposta dentro do plano do Pai. Se no Éden a mentira encontrou adesão, no deserto ela encontrou resistência.
Essa dinâmica se atualiza de modo dramático em nossa vida cotidiana. Uma infidelidade matrimonial pode ser compreendida como uma fake news existencial. Ela parte da narrativa de que alguém não é feliz no casamento e que, portanto, encontrará realização em outro relacionamento. Trata-se de uma história sedutora, que promete liberdade e prazer, mas oculta as consequências e rompe alianças. A mentira não está apenas no ato, mas na ideia de que a felicidade está fora do compromisso assumido.
O mesmo acontece quando um jovem busca nas drogas uma resposta para sua angústia. A falsa notícia que ecoa em seu interior diz que a alegria não é possível na sobriedade, que a vida é insuportável sem fuga, que é preciso desinibir-se para ser aceito ou sentir-se vivo. Essa narrativa promete alívio imediato, mas esconde a escravidão que se instala pouco a pouco. A fake news não se limita ao campo digital; ela invade o imaginário, molda escolhas e redefine horizontes.
À luz da vida cristã, o combate às fake news não se restringe à checagem de informações, mas passa pela conversão do coração. O cristão é chamado a discernir vozes, a confrontar narrativas com o Evangelho e a cultivar uma relação viva com a Verdade, que é Cristo. Quando a verdade se torna pessoal e relacional, a mentira perde força. A fidelidade no matrimônio, a sobriedade diante das tentações e a perseverança nas dificuldades são respostas concretas que desmentem as falsas promessas do mundo.
A "primeira fake news" não foi apenas uma frase dita no jardim, mas uma visão distorcida de Deus e do ser humano. Toda mentira atual repete esse padrão ao sugerir que Deus não basta e que seus caminhos não conduzem à felicidade. Desenvolver uma consciência cristã madura significa aprender a reconhecer essas narrativas sedutoras e reafirmar, com a vida, que a verdade não é opressão, mas libertação. Onde a mentira promete autonomia, a verdade oferece comunhão. Onde a falsa notícia seduz com brilho imediato, o Evangelho propõe uma alegria sólida e duradoura.
Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba