Quando criança, em novembro, época de Finados, eu costumava acompanhar meus pais ao Cemitério da Saudade. Lá, ouvia a ladainha de homens e mulheres que, nas portas do cemitério, pediam: “Esmola para os pobres”. O refrão se repetia, e o povo, movido pela caridade, depositava suas doações nas sacolas estendidas. Naquele tempo, o Cemitério da Saudade era o único da cidade, e o movimento ao redor — entre floristas, camelôs e visitantes — era intenso.
As pessoas se aglomeravam diante do magnífico Portal do cemitério, construção centenária inspirada no Arco do Triunfo, onde se lê, em latim: Omnes similes sumus — “Somos todos iguais”. Será que somos mesmo? Essa é outra reflexão. Hoje, a história é sobre aqueles homens e mulheres que pediam “esmolas” para os pobres: os vicentinos.
Ainda hoje, eles continuam presentes — nos cemitérios e nas portas das casas de Piracicaba. Já não pedem em voz alta, mas entregam pequenas orações e, com humildade, estendem suas sacolas pedindo “um auxílio para os pobres”. São outros tempos. Hoje, mais do que uma esmola, o pobre precisa de oportunidades.
Os vicentinos estão organizados em Piracicaba desde 1889, quando foi fundada a primeira Conferência — a Conferência Santo Antônio — em 16 de maio, apenas três dias após a assinatura da Lei Áurea. Um fato simbólico: o Brasil acabava de pôr fim oficial à escravidão. A Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP) nasceu em Paris, em 1833, fundada por um grupo de jovens leigos católicos preocupados com a pobreza e as injustiças de seu tempo. Entre eles, destacou-se Antônio Frederico Ozanam. Inspirados em São Vicente de Paulo (1581–1660), decidiram seguir o exemplo de Cristo, servindo com amor aos mais necessitados.
Hoje, a SSVP está presente em mais de 150 países, com cerca de 800 mil membros e o apoio de aproximadamente 1,5 milhão de voluntários. O Brasil é o país com o maior número de vicentinos do mundo: mais de 122 mil confrades e consócias, organizados em torno de 15.900 conferências (dados de 2024).
A Sociedade, em sua Regra, afirma: “A SSVP serve àqueles que estão em necessidade, qualquer que seja sua religião, origem social ou étnica, estado de saúde, sexo ou opinião política”. Os vicentinos vivem o Evangelho das Bem-Aventuranças, conscientes de que a misericórdia recebida de Deus deve ser partilhada com os irmãos. Ainda segundo a Regra Vicentina, nas visitas e ações de caridade, cada membro deve “ter cuidado fundamental com a vida interior e com as exigências espirituais daqueles a quem presta ajuda, respeitando sua fé, escutando e compreendendo com o coração — para além das palavras e aparências” (Regra Vicentina, p. 17).
Na Diocese de Piracicaba (excluindo Rio Claro), sob a liderança de Dom Devair Araújo da Fonseca e com o Pe. Claudemir da Rocha como assessor espiritual, os vicentinos participam ativamente da vida pastoral das paróquias. São cerca de 70 conferências e dois Conselhos Centrais, que prestam contas de suas atividades nas reuniões semestrais da Cúria Diocesana. Lázara Cristian Sorsen é a presidente do Conselho Central de Piracicaba, e José Renato Baptista preside o Conselho Central Norte.
Ao todo, a Região Metropolitana de Piracicaba reúne cerca de 750 vicentinos, entre confrades, consócias, aspirantes e auxiliares. São jovens, homens e mulheres que, servindo ao próximo em suas necessidades materiais e espirituais, encontram um sentido mais profundo para a vida e fortalecem sua fé e compromisso comunitário.
Ao longo de 2026, esta série de crônicas vicentinas pretende recordar e homenagear os que construíram essa bela história de caridade e amor ao próximo — exemplos vivos do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.