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Bem-aventurados em um mundo competitivo

Publicado em 5 de fevereiro de 2026 - 17:08:54

Em quase tudo na nossa vida, fomos ensinados a buscar o primeiro lugar. Desde pequenos aprendemos que é preciso vencer, superar o outro, conquistar a melhor posição. Concursos, vagas de emprego, resultados escolares, metas profissionais: tudo parece organizado como uma grande competição. No entanto, quando essa lógica entra na vida espiritual, algo se perde no caminho. O irmão, que deveria ser companheiro, passa a ser visto como concorrente; a fé, que deveria libertar, se transforma em peso e disputa.

É aí que o Evangelho das bem-aventuranças nos surpreende. Jesus sobe a montanha, vê a multidão e, em vez de propor uma nova forma de competição religiosa, apresenta um caminho totalmente diferente. Não promete prestígio, não oferece garantias de sucesso humano, não anuncia uma vida sem contradições. Pelo contrário, declara felizes os pobres em espírito, os mansos, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os perseguidos por causa do Seu nome. À primeira vista, parece um contrassenso. Como pode ser bem-aventurado quem é perseguido? Como pode ser feliz quem não vence segundo os critérios do mundo?

As bem-aventuranças são uma inversão da forma olhar. Elas revelam que, para Deus, não conta a vitória construída às custas da dignidade do outro, nem a conquista sustentada pela mentira, nem o aplauso que nasce da incoerência. A pobreza de espírito não é miséria material, mas liberdade interior diante das coisas. É deixar espaço para que Deus habite o coração, sem que o desejo de possuir, mandar ou aparecer ocupe o centro da vida. O pobre em espírito não é o derrotado, mas aquele que sabe que tudo recebe de Deus e, por isso, não se deixa escravizar por nada nem por ninguém.

Também nós, muitas vezes, dizemos ter fé, mas ajustamos o Evangelho aos nossos interesses. Rezamos, participamos da missa, fazemos promessas, mas, na hora de escolher, seguimos a lógica da vantagem, da esperteza, do “cada um por si”. Esperamos que Deus nos recompense porque “cumprimos a nossa parte”, como se o relacionamento com Ele fosse uma troca. No entanto, Jesus não nos chama a negociar bênçãos, e sim a segui-lo. Ser bem-aventurado não é ter uma vida sem problemas, mas viver cada situação — alegrias, dores, vitórias, derrotas — com o coração configurado ao dele.

Quando Ele diz: “Bem-aventurados sois vós, quando vos perseguirem por causa de mim”, não está glorificando o sofrimento pelo sofrimento. Está mostrando que existe uma fidelidade que não se vende por nenhum preço. Em um mundo que transforma tudo em disputa, a verdadeira bem-aventurança é reconhecer o irmão, recusar caminhos desonestos, manter a consciência reta, mesmo que isso custe reconhecimento ou posição. Quem vive assim pode até ser incompreendido, ridicularizado, excluído; mas é nessa coerência que se manifesta o amor de Deus.

As bem-aventuranças não são uma promessa adiada para depois da morte. Já aqui, quando escolhemos a misericórdia em vez da vingança, a pureza de coração em vez da duplicidade, a justiça em vez da indiferença, começamos a experimentar o sabor do céu. Isso não elimina as lágrimas nem os conflitos, mas dá um sentido novo a tudo. A palavra de Deus nos coloca de pé nas horas difíceis, nos impede de transformar o outro em inimigo, nos educa a confiar mesmo quando não entendemos plenamente o porquê dos acontecimentos.

Ser bem-aventurado, à luz do Evangelho, é deixar que o próprio Cristo molde em nós um coração semelhante ao dele. É aprender a viver neste mundo sem nos deixar prender pelos seus critérios mundanos. É ter a coragem de “perder”, quando for preciso, para não trair o Evangelho. É manter a vigilância e a fidelidade, sabendo que Deus não abandona aqueles que nele confiam. Que o Senhor nos conceda a graça de caminhar entre as lógicas de competição e interesse, testemunhando, com simplicidade e firmeza, que a verdadeira felicidade nasce de uma vida entregue, pobre em espírito, mas rica da presença de Deus.

Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba

 

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