Em quase tudo na nossa vida, fomos ensinados a buscar o primeiro lugar. Desde pequenos aprendemos que é preciso vencer, superar o outro, conquistar a melhor posição. Concursos, vagas de emprego, resultados escolares, metas profissionais: tudo parece organizado como uma grande competição. No entanto, quando essa lógica entra na vida espiritual, algo se perde no caminho. O irmão, que deveria ser companheiro, passa a ser visto como concorrente; a fé, que deveria libertar, se transforma em peso e disputa.
As bem-aventuranças são uma inversão da forma olhar. Elas revelam que, para Deus, não conta a vitória construída às custas da dignidade do outro, nem a conquista sustentada pela mentira, nem o aplauso que nasce da incoerência. A pobreza de espírito não é miséria material, mas liberdade interior diante das coisas. É deixar espaço para que Deus habite o coração, sem que o desejo de possuir, mandar ou aparecer ocupe o centro da vida. O pobre em espírito não é o derrotado, mas aquele que sabe que tudo recebe de Deus e, por isso, não se deixa escravizar por nada nem por ninguém.
Também nós, muitas vezes, dizemos ter fé, mas ajustamos o Evangelho aos nossos interesses. Rezamos, participamos da missa, fazemos promessas, mas, na hora de escolher, seguimos a lógica da vantagem, da esperteza, do “cada um por si”. Esperamos que Deus nos recompense porque “cumprimos a nossa parte”, como se o relacionamento com Ele fosse uma troca. No entanto, Jesus não nos chama a negociar bênçãos, e sim a segui-lo. Ser bem-aventurado não é ter uma vida sem problemas, mas viver cada situação — alegrias, dores, vitórias, derrotas — com o coração configurado ao dele.
Quando Ele diz: “Bem-aventurados sois vós, quando vos perseguirem por causa de mim”, não está glorificando o sofrimento pelo sofrimento. Está mostrando que existe uma fidelidade que não se vende por nenhum preço. Em um mundo que transforma tudo em disputa, a verdadeira bem-aventurança é reconhecer o irmão, recusar caminhos desonestos, manter a consciência reta, mesmo que isso custe reconhecimento ou posição. Quem vive assim pode até ser incompreendido, ridicularizado, excluído; mas é nessa coerência que se manifesta o amor de Deus.
As bem-aventuranças não são uma promessa adiada para depois da morte. Já aqui, quando escolhemos a misericórdia em vez da vingança, a pureza de coração em vez da duplicidade, a justiça em vez da indiferença, começamos a experimentar o sabor do céu. Isso não elimina as lágrimas nem os conflitos, mas dá um sentido novo a tudo. A palavra de Deus nos coloca de pé nas horas difíceis, nos impede de transformar o outro em inimigo, nos educa a confiar mesmo quando não entendemos plenamente o porquê dos acontecimentos.
Ser bem-aventurado, à luz do Evangelho, é deixar que o próprio Cristo molde em nós um coração semelhante ao dele. É aprender a viver neste mundo sem nos deixar prender pelos seus critérios mundanos. É ter a coragem de “perder”, quando for preciso, para não trair o Evangelho. É manter a vigilância e a fidelidade, sabendo que Deus não abandona aqueles que nele confiam. Que o Senhor nos conceda a graça de caminhar entre as lógicas de competição e interesse, testemunhando, com simplicidade e firmeza, que a verdadeira felicidade nasce de uma vida entregue, pobre em espírito, mas rica da presença de Deus.
Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba