Vivemos em um tempo em que tudo precisa ser anunciado com intensidade. O mundo se acostumou à lógica da propaganda, à necessidade de mostrar, de convencer, de aparecer. Tudo é planejado para prender a atenção, despertar emoção, gerar resultado. Mas o Reino de Deus não entra por essa porta larga. Ele começa no silêncio.
O Batismo do Senhor nos recorda que o Messias se manifesta sem alarde, sem espetáculo. Jesus se aproxima das margens do Jordão como um homem comum. Está no meio do povo, na fila daqueles que estavam buscando ser batizados por João. E é justamente na simplicidade desse gesto que o Pai o revela: “Este é o meu Filho amado” (cf. Mt 3,13-17). A voz que vem do alto não ecoa nas praças, mas no coração de quem crê.
Isaías já havia anunciado esse modo de agir de Deus: o Servo não levanta a voz, não quebra a cana rachada, não apaga o pavio que ainda fumega (cf. Is 42). Tudo o que é grandioso, em Deus, começa pequeno — e só pode ser reconhecido por quem se deixa conduzir pelo Espírito.
Hoje, muitos são tentados a buscar um cristianismo de visibilidade, de aplausos, de ajustes às modas. Mas o Evangelho não precisa deste tipo de propaganda: ele exige testemunho. E testemunhar é caminhar com Jesus, deixar-se iluminar pela Palavra, mesmo quando isso significa nadar contra a corrente. O cristão não negocia os valores do Evangelho por aprovação de grupos ou da opinião alheia.
Pedro, nos Atos dos Apóstolos (cf. At 10,34-38), confessa: “Agora entendo que Deus não faz distinção de pessoas”. Essa compreensão também é fruto de um caminho. Nós, como Pedro, precisamos passar da emoção à conversão, da curiosidade à fidelidade. O seguimento de Cristo é um processo diário, feito de escuta, silêncio e coerência.
O Batismo de Jesus inaugura um novo tempo: o tempo da missão, do ministério do Senhor. Para nós, ser batizado é entrar nessa mesma lógica — a do amor que serve, pois Deus também se abaixa para erguer o homem. No Jordão, Jesus mergulha nas águas não para ser purificado, mas para purificar. Ele desce às profundezas da humanidade para elevá-la ao coração do Pai.
No calendário litúrgico, a festa do Batismo do Senhor, que celebramos no domingo, dia 11 de janeiro, inicia o Tempo Comum. Mas “comum” não significa sem importância. Significa de alguma forma o “cotidiano”, onde a graça se manifesta de modo mais discreto, mas plenamente real. É o tempo de caminhar com Jesus, de permitir que Ele molde a nossa vida, nossas escolhas e atitudes.
O mundo continuará fazendo suas propagandas. Mas o Reino cresce sem ruído, com a fé, silêncio e generosidade. Quem caminha com Cristo aprende que o verdadeiro anúncio se faz mais com a vida do que com discursos.
Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba