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Fé não se esconde

Publicado em 27 de novembro de 2025 - 14:04:36

Há um problema que persegue o cristianismo de nossos dias, um problema que não é novo, mas que piorou com a facilidade que temos hoje de nos fechar em certos grupos, de nos acomodar em determinadas situações. Somos católicos quando entramos na igreja, e depois, quando voltamos à rua, somos cidadãos de outro reino, cidadãos de outra lógica, cidadãos que não precisam mais responder aos compromissos que muitas vezes acabamos de renovar diante do altar. Essa divisão, essa incoerência de vida, não é cristã. Nunca foi. E precisamos admitir isso com clareza.

Durante séculos, as primeiras comunidades cristãs entenderam algo fundamental que nós, talvez, tenhamos perdido de vista. A fé não era um adereço para os momentos solenes, não era um perfume espiritual que se aplicava nos domingos. A fé era a estrutura de uma vida inteira, o alicerce sobre o qual todas as decisões, palavras e gestos eram construídos. Por isso, quando São Paulo escrevia para a comunidade de Tessalônica advertindo que "quem não quer trabalhar também não tem que comer", ele não estava sendo desumano ou cruel. Ele estava dizendo algo muito mais profundo: a fé cristã não é passiva, não é apenas contemplativa num sentido de inatividade, de inércia. Ela é ativa, comprometida, encarnada no mundo.

A tentação que enfrentamos é a da fé morna, aquela que não oferece sinais de contradição. Queremos uma religião confortável, que nos acolha sem nos questionar, que nos permita ser cristãos quando convém e, quando não convém, que nos deixe tranquilos na nossa zona de conforto. Mas isso não é o Evangelho. O Evangelho de Jesus é sempre um chamado provocador, sempre uma palavra que vem reacender aquilo que dormiu, sempre um fogo que queima o que é falso para deixar a Verdade resplandecer. E sim, esse fogo consome, queima, até dói. Porque mudar de vida não é fácil. Porque a coerência tem seu custo. Porque o testemunho exige riscos.

Jesus não veio nos oferecer um seguro contra as dificuldades. Ele veio nos mostrar um caminho, e esse caminho passa pela cruz. Os apóstolos não receberam um prêmio ao anunciar a Boa Nova, receberam perseguição. Os mártires não foram recompensados com conforto material, mas no martírio permaneceram fiéis a Cristo. Se hoje podemos celebrar a nossa fé é porque, no passado, muitos perderam tudo o que tinham e até suas vidas por aquilo que acreditavam. E nós? O que esperamos? Uma vida tranquila, isenta de conflitos? Isso não corresponde à realidade do que significa ser cristão.

Há uma pergunta que ressoa ao longo de todos os Evangelhos, dirigida a cada um de nós: "A que vocês professam, a fé que vocês dizem que têm, será que ela transforma realmente a vida de vocês?". Quantas vezes, quando chega um momento de discórdia, abraçamos a estratégia da conciliação barata? “Religião não se discute”. Será é simples assim? Concordamos com tudo, sorrimos para todos e escondemos aquilo que realmente acreditamos. Pensamos que isso é prudência, mas é covardia. Pensamos que isso é diplomacia, mas é traição à fé que professamos.

Não se trata de ficar arrumando confusão por aí, na família, no trabalho ou até na igreja. Mas a vigilância cristã não é vigilância por medo. Não é aquela vigilância de quem tem medo de se expor, de ser punido. É a vigilância que nasce do amor, que nos leva a dizer: "Eu cuido porque amo, eu me comprometo porque acredito que isso é verdade". É aquela vigilância que não dorme, que não se distrai, que não abre mão daquilo em que crê, ainda que isso lhe custe tudo.

Nós vivemos em um tempo que nos oferece mil facilidades para fugirmos dessa responsabilidade. Podemos dizer que "religião não se discute", que "cada um tem sua fé" e que, portanto, não precisamos mais falar sobre isso em público. Mas esse silêncio cômodo não é evangélico. Não é cristão abandonar a verdade por medo de desagradar. Não é fidelidade a Deus esconder aquilo que Deus nos revelou. O diálogo respeitoso é uma virtude cristã, sim. Mas o diálogo respeitoso não significa renunciar à verdade. O diálogo significa manter a verdade, enquanto se respeita o outro.

A fé que vale a pena viver é aquela que marca a vida inteira. É aquela que diz ao mundo: "Eu sou católico na rua, na família, no trabalho, na hora que ninguém está vendo. Eu sou católico porque acredito, porque confio, porque o Senhor Jesus Cristo é para mim a razão de tudo". Essa é a fé que convida. Essa é a fé que atrai. Porque as pessoas percebem quando algo é verdadeiro, quando algo nasce de um coração que realmente acredita.

Perguntemos a nós mesmos, então, com sinceridade: existem contradições profundas entre o que dizemos crer e o que fazemos e vivemos? E se existem, por quê? Por medo? Por conveniência? Por fraqueza? Porque, se é assim, é hora de acordar. É hora de retomar aquela vigilância cristã que nos permite estar sempre prontos para seguir Jesus, onde quer que Ele nos chame. Que nossa vida inteira seja testemunho. Que nossos gestos falem mais que nossas palavras. Que nossa fé não se esconda, mas resplandeça na escuridão deste mundo.

Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba

 

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