Quando Deus perguntou a Caim: “Onde está o teu irmão?” (Gn 4,9), não buscava apenas uma informação, mas um diálogo. A resposta — “Sou guarda do meu irmão?” — revela um coração endurecido, que ainda hoje ecoa nas ruas do país. O sangue de Abel continua a clamar da terra, agora misturado ao sangue que escorre pelas vielas das grandes cidades, sobretudo nas periferias existenciais. De quem são os corpos que tombam nas favelas? São do crime, da polícia, da sociedade ou, antes de tudo, do Filho de Deus?
A recente operação no Rio de Janeiro recorda uma ferida antiga — a de um país que convive com a desigualdade como se fosse parte da paisagem. As favelas, ou, como se prefere dizer, as comunidades, vivem sob o domínio da ausência do Estado, da falta de oportunidades e do vazio de esperança. Quando o Estado chega, muitas vezes chega armado. Quando o crime se impõe, assume o papel de uma autoridade paralela. No meio disso, estão famílias, mães, pais, crianças e idosos, que aprendem a reconhecer o som dos tiros como se fossem sons cotidianos. Os corpos que se acumulam nas ruas são o espelho de um país que perdeu a noção de quem deve guardar quem.
É preciso dizer também, com clareza, que há homens e mulheres das forças de segurança que cumprem sua missão com coragem e sacrifício. Muitos enfrentam o risco diário de defender o bem comum e voltam para casa feridos — no corpo e na alma. A tragédia das mortes nas comunidades não é apenas a tragédia dos pobres, mas também dos que servem à sociedade sem condições dignas e sem o respaldo necessário. Defender a vida dos inocentes é também defender o policial que morre no cumprimento do dever. O mal não está em quem serve, mas nas estruturas que alimentam o ódio e transformam o combate ao crime em campo de vingança. A favela, chamada de “zona de guerra”, também é terra sagrada, parte integral da cidade, e “Deus habita esta cidade” (Sl 47,9).
O discurso que busca sempre um culpado — “os traficantes são vítimas dos usuários”, “os pobres são vítimas do sistema econômico” — revela a mesma tentação antiga: fugir da própria responsabilidade. Assim como Adão culpou Eva e Eva culpou a serpente, também nós criamos bodes expiatórios para não encarar nossa parte no problema. No fim, todos se declaram vítimas, e ninguém reconhece sua responsabilidade. O pecado deixa de ser pessoal e torna-se coletivo, mas permanece sem arrependimento.
O Evangelho, porém, não permite neutralidade. Jesus, ao ver o cortejo da viúva de Naim, não perguntou a quem pertencia o corpo do jovem morto (cf. Lc 7,11-17). Ele tocou o esquife e interrompeu o cortejo da morte. Esse gesto divino é o oposto da indiferença, porque Deus não pergunta quem é o culpado, mas quem vai amar. No Reino de Deus não há corpos descartáveis — nem nas favelas, nem nos quartéis, nem nos hospitais. Todo sangue derramado clama ao céu, e cada corpo caído é uma derrota coletiva.
O desafio que se impõe ao país é o de não transformar a dor em estatística. Os números das operações no Rio precisam se tornar rostos, histórias, nomes. A paz não nascerá de decretos nem de blindados, mas de justiça e reconciliação. E a reconciliação começa quando o Estado deixa de ver territórios inteiros como inimigos e quando a sociedade reconhece que a violência não é espetáculo, mas ferida que sangra o próprio corpo nacional. De nada servem discursos políticos polarizados, que alimentam o jogo de empurrar a culpa de um lado para o outro.
A pergunta divina continua ecoando: “Que fizeste do teu irmão?” (Gn 4,10). É a voz de Deus pedindo uma resposta, não de política, mas de consciência. Os corpos são de Deus, e por cada um deles seremos julgados. “Toda violência é derrota. Só o amor constrói a paz.” (Papa Francisco, Fratelli Tutti, n. 235). Que essa dor se transforme em apelo por uma nova ética da vida, em que segurança e compaixão não se oponham, mas caminhem juntas.
Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba