Quando pensamos em reis e rainhas, logo nos vem à mente imagens distantes: coroas de ouro, tronos elevados, poder e glória. Essa é a experiência que nossa cultura carrega ao falar de realeza. No entanto, a Sagrada Escritura e a Igreja nos convidam a contemplar a Virgem Maria como rainha em um sentido muito diferente daquele que o mundo costuma apresentar. Em Maria, não encontramos a distância de uma soberana enclausurada em palácios, mas a proximidade de uma mãe que escuta, acolhe e serve.
A realeza da Virgem nasce do seu coração disponível à vontade de Deus. A primeira atitude de Maria, narrada nas Escrituras, foi a abertura silenciosa para a escuta. Entre barulhos internos e externos, que tantas vezes nos impedem de discernir a voz de Deus, Maria faz silêncio para ouvir. Sua grandeza como rainha não se manifesta em privilégios, mas na humildade de quem se deixou conduzir pela Palavra. Ela nos ensina que sem a escuta de Deus a vida perde o seu verdadeiro sentido.
No Antigo Testamento, o profeta Isaías nos fala de um rei que traria a paz. Essa era a esperança do povo: um governante diferente, que não se levantaria para a guerra, mas para reconciliar. Maria acolheu esse anúncio no mais íntimo de sua vida. Ao ouvir a mensagem do anjo, interrogou-se, refletiu, e mesmo na dúvida não fechou seu coração. Pelo contrário, sua adesão plena à vontade de Deus se tornou a porta pela qual entrou no mundo aquele que é o verdadeiro Rei: Jesus Cristo.
É no serviço que a realeza de Maria se revela com clareza. Ao dizer “Eis aqui a serva do Senhor”, ela não se coloca acima de ninguém, mas põe-se a caminho. Apressadamente, vai visitar Isabel, levando consigo a alegria da presença de Deus. Maria é senhora porque é serva; é mãe porque acolhe; é rainha porque, ao se inclinar, nos mostra a dignidade de viver em comunhão com o Senhor e com os irmãos.
Em Cristo, descobrimos também o verdadeiro sentido de reinar. Ele é Rei não porque se impôs com armas ou com poder humano, mas porque se entregou até a cruz. A sua coroa não foi feita de ouro, mas de espinhos; o seu trono não foi de mármore, mas da madeira marcada pelo sofrimento. E é dessa entrega total, sem reservas e sem exigências, que brota a vitória de Deus e o triunfo do amor.
Diante dessa realidade, somos convidados a perguntar: o que significa para nós reconhecer Maria como mãe e rainha? Não se trata de um título de afastamento, mas de proximidade. Maria reina porque continua a nos conduzir ao Filho, intercedendo por nós e ensinando-nos a caminhar na esperança. Maria é mãe porque não abandona seus filhos, mesmo quando estes se perdem em meio às dificuldades, dúvidas ou ilusões de um mundo que busca apenas glórias passageiras.
Também nós, como filhos de Maria, somos chamados a viver essa mesma lógica do Reino: escutar, confiar, servir. Não podemos nos deixar enganar por uma visão superficial de realeza, que nos coloca em busca de destaque e honras. Cristo é Rei na cruz, Maria é rainha pelo serviço. Nossa missão é ser presença do Evangelho na família, na comunidade, na sociedade, como testemunhas de que Deus não decepciona. Ele permanece fiel e nos sustenta em todos os momentos, ainda que nossas expectativas humanas nem sempre se realizem como desejamos.
Que a Virgem Maria, mãe e rainha, nos ajude a olhar para Cristo, Rei na cruz, e a percorrer esse mesmo caminho de confiança, serviço e entrega. Que ela nos inspire a viver no silêncio orante da escuta, na humildade da acolhida da Palavra e na generosidade do serviço. Assim, nossa vida poderá refletir que a verdadeira realeza não está na glória dos homens, mas no amor que se doa.
Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba