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Arquidiocese de Porto Alegre Mobiliza rede de solidariedade para mitigar efeitos das enchentes

Publicado em 9 de maio de 2024 - 17:07:01

Templos transformados em dormitórios, sacristia em hospitais e salões comunitários em refeitórios e abrigos. As paróquias e capelas da Arquidiocese de Porto Alegre se abriram para acolher a Deus nos corpos sofridos, fatigados e doloridos de milhares de pessoas da maior tragédia de enchentes da história riograndense. Como dizia o escritor judeu, Franz Kafka, a solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana. A mobilização solidária está em todas as regiões da Arquidiocese, do Estado e de todo o Brasil.

Há dias, o Governo do Estado decretou estado de Calamidade Pública. A Rede Escolar está suspensa por tempo indeterminado. Conforme as últimas informações oficiais da Defesa Civil do Estado, o número de mortos em razão dos temporais que atingem o Rio Grande do Sul subiu para 107 na quinta-feira. Há 136 desaparecidos e 374 pessoas feridas. Calcula-se, porém, que o número de mortos seja maior. Alguns números revelam o tamanho da tragédia, mas que por hora ainda não seja possível calcular a proporção dessa catástrofe climática inédita no Rio Grande do Sul e no Brasil.

Nem a famosa enchente de 1941, que foi imensa na capital gaúcha, foi de tamanha proporção. Algo inusitado e de dimensões sem precedentes. Embora os dados mudam a cada instante, são quase 160 mil pessoas fora de casa, sendo 67.542 em abrigos e 164.583 desalojadas (nas casas de familiares ou amigos). Ao todo, 425 dos 497 municípios do estado registraram algum tipo de problema, afetando 1.476.170 pessoas. A Capital gaúcha está isolada por terra e pelo ar. As rodovias estão submersas e o aeroporto Internacional Salgado Filho foi fechado porque a pista está alagada.

Paroquianos preparam refeição para desabrigados

Toda a rede da Dimensão da Caridade da Arquidiocese foi acionada. A Catedral Mãe de Deus foi transformada em ponto de coleta de doações para apoiar o atendimento dos flagelados nas dezenas de abrigos temporários que foram montados pela Igreja Católica, governos e organizações da sociedade civil. A Cáritas Arquidiocesana montou uma força-tarefa para auxiliar as pessoas flageladas na tragédia que afetou o Estado. Os seus colaboradores estão trabalhando para selecionar alimentos, roupas e colchões, a fim de apoiar os locais que estão acolhendo os desabrigados. A atividade conta com a colaboração dos seminaristas de filosofia e teologia da Arquidiocese de Porto Alegre.

Segundo o Diretor Executivo, Luís Carlos Campos, a solidariedade dos doadores tem permitido essa ajuda. “Neste domingo, a empresa KFG Distribuidora de Santa Catarina doou uma carreta com 28 paletes de água mineral”. Os primeiros carregamentos já estão destinados para os locais que estão acolhendo as famílias desabrigadas na Paróquia Santa Rosa de Lima e Escola São Francisco na Zona Norte da Capital e para a Paróquia Nossa Senhora Desatadora de Nós no bairro Umbu, em Alvorada. Além de água, estão sendo destinados para esses locais colchões, a fim de auxiliar na montagem dos espaços de acolhimento.

O Caminhão do Mensageiro da Caridade/Cáritas Arquidiocesana transportou outra carga de material de apoio para as famílias atingidas. Roupas e cobertores foram destinados para os atendidos do Centro Pop 2, localizado no bairro floresta. Segundo a assistente social do Mensageiro da Caridade, Andressa Rech, a entidade se mobilizou imediatamente para atender às necessidades. “Muitos desses beneficiados estão fragilizados. Entre eles estão que se salvaram do incêndio da semana passada na Pousada Garoa”. O Diretor do Centro POP, Roque Grazziola, agradeceu a pronta resposta do Mensageiro da Caridade e destacou a mobilização da sociedade e dos doadores do Mensageiro. “Essas doações representam o apoio as pessoas mais fragilizadas de nossa Porto Alegre”, disse.

O Mensageiro da Caridade auxiliou também famílias que vivem no Morro da Glória. A equipe do CRAS Regional solicitou auxílio para um deficiente físico que perdeu seus pertences e estava dormindo no chão. A chuvarada também atingiu a residências de famílias com várias crianças na mesma comunidade. Foram repassados cama e colchão. A assistente social do Mensageiro da Caridade, Marta Bangel, afirmou que essa ação em rede é fundamental para garantir o atendimento das famílias nessa hora de dificuldade. “Nos próximos dias precisaremos de muito apoio dos doadores para que possamos garantir condições básicas de vida aos atingidos pela tragédia em nosso Estado”.

Acolhimento nas paróquias

As paróquias católicas de forma generosa e comprometida abriram seus espaços para o acolhimento. A Paróquia Nossa Senhora de Fátima, da cidade de Guaíba, acolheu 220 pessoas na Igreja e no Salão Paroquial e outras 120 nas capelas de Pedras Brancas e São Francisco oriunda do município de Guaíba e Eldorado do Sul. O Pároco, Pe. Diego da Silva Corrêa, afirmou que “graças à Deus recebemos todos os dias muitas doações de alimentos roupas, cobertores, e material de higiene e limpeza, o povo tem sido muito generoso. Mas é um cenário de guerra”.

Na Paróquia Menino Jesus de Praga, a força-tarefa montada na Comunidade Santa Luzia prepara alimento para distribuir nas comunidades afetadas e nos abrigos temporários montados para acolhimento. A paróquia também é um ponto de coleta de donativos para auxiliar os flagelados. Segundo a agente da Caridade, Cleusa Tramontina, são centenas de marmitas distribuídas diariamente em abrigos nos Centros de Tradição Gaúcha, postos de saúde, em escolas e diretamente às famílias atingidas nas vilas da Zona Sul de Porto Alegre. “Nossas equipes volantes de voluntários, com seus automóveis, percorrem essas unidades para levar o alimento quente e preparado em nossa paróquia”.

Também a paróquia N. Sra. da Paz, de Guaíba, montou acampamento para os desabrigados, bem como Charqueadas, Barão do Triunfo, Sentinela do Sul, sobretudo provindos da cidade de Eldorado do Sul, que, segundo Pe. Fabiano Glaeser dos Santos, pároco na Paróquia Medianeira de Eldorado, virou um único rio, havendo 100% de inundação. Sertão Santana acolhe 600 desabrigados. Diversos voluntários organizam constantemente equipes para o preparo de marmitas aos acolhidos nos acampamentos, provindas também de paróquias vizinhas.

Gravataí e Canoas

No último final de semana, as paróquias do Vicariato de Gravataí realizaram uma ação coletiva de coleta de roupas, alimentos e material de limpeza. Milhares de itens foram doados pelos fiéis que foram às igrejas para as celebrações dominicais. O Pároco da Paróquia Santo Hilário, Pe. Batista Nunes Vieira, abriu os espaços da Igreja para receber flagelados da cidade e de outros municípios. “Aqui acolhemos, preparamos alimento e cuidamos das pessoas. Graças a Deus, o apoio da comunidade com doações e o trabalho dos voluntários são abundantes. Isso significa uma expressão do amor de Deus que cuida das pessoas em seu momento de maior fragilidade”, destacou Pe. Batista. O Seminário Arquidiocesano São José, em Gravataí, está acolhendo 150 pessoas, numa ação conjunta com a Defesa Civil do município. A Paróquia Santa Luzia também está recebendo flagelados da cidade e da Região Metropolitana.

Na cidade de Canoas, uma das mais atingidas, sobretudo no Bairro populoso de Matias Velho (200 mil moradores), as paróquias que estão nas zonas altas como São Luiz Gonzaga, São Cristóvão, Nossa Senhora das Graças, Santa Luzia e São Paulo abriram suas estruturas para abrigar os atingidos pelos alagamentos. Somente na paróquia São Luiz Gonzaga são 250 pessoas alojadas. As escolas católicas também estão acolhendo. O Colégio Auxiliadora das Irmãs de Notre Dame, está abrigando 800 pessoas e mais de trezentas estão no Colégio La Salle, dos Irmãos Lassalistas. Segundo informação da defesa civil, a cidade de 348 mil habitantes tem dois terços de sua área alagada.

Colégios Católicos

As Escolas Católicas também estão integradas nessa rede de acolhimento, amparo e solidariedade. O Colégio Rainha do Brasil, das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora Aparecida, abriu suas portas para acolher desabrigados, dando prioridade às famílias que possuem filhos autistas. O Colégio tem atenção especializada para surdos e deficientes. A atenção direcionada a esses públicos é fundamental diante da extensão da tragédia. Também abriram as suas portas os colégios Dom Feliciano e Mãe de Deus das Irmãs do Imaculado Coração de Maria. A Rede São Francisco abriu sua unidade da Baltazar de Oliveira Garcia, São Francisco/Santa Fé e São Vicente Palotti, no bairro Passo D’Areia e Coração de Maria de Esteio para receber 511 pessoas flageladas. Segundo o Diretor pedagógico da Rede São Francisco, Prof. Vitor Heinrichsen, destacou que a capela da escola foi transformada em dormitório, tamanha a necessidade de entre-ajuda e espaço.

Povo da rua

A Pastoral do povo da Rua da Arquidiocese de Porto Alegre também fez uma mobilização especial para atender a esse público. Uma rede de contatos, informações e emergência está funcionando desde o início da tragédia, com o objetivo de alocar as pessoas em espaços de abrigo e proteção. A ONG “A Fome tem Pressa”, que integra a pastoral, está preparando alimentos todos os dias para centenas de flagelados. Segundo o Coordenador da ONG, Rogério Dalló, são mais de 200 abrigados, além de trinta bebês e cinquenta crianças. “Nossa equipe de cozinha também está distribuindo em outras cozinhas comunitárias e abrigos como o sindicato dos metalúrgicos, Escola Mesquita e sindicato dos aeroviários. Temos um grande apoio dos sindicatos”, destacou Dalló. Somente no domingo foram distribuídas cinco mil refeições.

Algumas alternativas naturais estão sendo buscadas, porque o sistema de fornecimento de água está precarizado e está sendo racionalizado em Porto Alegre. A água só pode ser usada para uso emergencial e necessidades básicas. Por isso, a Pastoral do Povo da Rua está divulgando uma lista de bicas, fontes e vertentes naturais de água na Capital gaúcha, para que a população possa se abastecer de água potável. Apenas duas bombas de propulsão estão operando em toda a cidade. Verdadeiro “cenário de guerra”, como se ouve dizer em tantos lugares. Cenas jamais vistas e presenciadas. Mas, nunca, em toda a história gaúcha, se viu tamanha rede de solidariedade de nossa gente e de todo o povo brasileiro.


Com colaboração do jornalista Elton Bozzetto – RP 10.417 e padra Gerson Schmidt – Jornalista e colaborador na Rádio Vaticano

*Dados atualizados com o boletim da Defesa Civil do RS, divulgado às 9h de quinta-feira, 9 de maio.
 
Texto e foto: Divulgação / CNBB
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