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Padre Federico Lombardi: “A viagem do Papa ao Canadá atingiu seus objetivos”

Publicado em 1 de agosto de 2022 - 16:36:52

Após a 37ª Viagem Apostólica do Papa ao Canadá, fizemos uma entrevista ao padre Federico Lombardi, escritor da revista dos jesuítas “La Civiltà Cattolica” e ex-diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, pedindo-lhe para repercorrer, brevemente, as etapas mais salientes da Viagem: infraestruturas, estilo, conteúdos e esperanças.

Padre Lombardi, qual a avaliação que o senhor faria ao término desta peregrinação penitencial de Francisco?

“Parece-me que a viagem atingiu, realmente, seus objetivos e tenha sido impostada com muita coerência e unidade: não foi dispersiva e seu fio condutor bastante preciso e bem preparado. O Papa fez tudo o que queria fazer, se assim podemos dizer, percorrendo os lugares daquele imenso país com o desejo de contribuir, com os povos indígenas e a sociedade canadense, para a reconciliação e a construção de uma realidade harmônica; ele o fez de modo que pudessem olhar o futuro, a partir de novas relações, no pleno respeito da dignidade e dos valores de cada um dos componentes, que entrou a fazer parte da formação deste país. O Papa soube também envolver toda a comunidade da Igreja no Canadá, percorrendo um verdadeiro caminho: o do reconhecimento penitencial dos pecados, que é sempre o ponto de partida de todo encontro autêntico com os outros e com Deus; soube dirigir este caminho para a esperança: não se deteve apenas no reconhecimento do pecado, mas deu um passo a mais para um compromisso, vivido não só de modo voluntário, mas cristão, com grande confiança no poder da ressurreição do Senhor e no anúncio do Evangelho”.

“O Papa soube encarnar seus discursos na memória da evangelização do Canadá: citou, por exemplo, a figura de São Francisco de Laval, que ele mesmo canonizou, nos últimos anos, como também a tradição cristã deixada pelos grandes missionários da primeira época, que se concretizou com a figura de Santa Ana. Assim, tocou o coração da religiosidade tradicional e popular, baseada solidamente na Igreja. Enfim, o caminho penitencial, -concernente aos casos de abusos ou desrespeito dos povos indígenas e à dolorosa história das escolas residenciais, - se entrelaça com um fio de esperança, com base na fé em Cristo e no anúncio genuíno do Evangelho. Isso chegou a tocar a atualidade da sociedade canadense, mediante referências explícitas, sobre a questão da secularização da sociedade canadense, que levou a uma maior fragilidade ao enfrentar o fenômeno de forma positiva e confiante.

Em seus discursos sobre a memória da evangelização do Canadá, o Papa destacou também a contribuição dos grandes autores canadenses recentes, como Taylor, um dos maiores estudiosos da secularização e um grande católico; Lonergan, um dos grandes teólogos do século passado, que refletiu, com profundidade, sobre a relação entre o anúncio da fé e a cultura atual. Isto quer dizer que, na história da evangelização, o Canadá dispõe de referências antigas e modernas, que podem dar uma resposta aos problemas ou desafios de hoje”.

O Papa Francisco disse que a Igreja não é uma ideia que deve ser inculcada, mas uma casa acolhedora de reconciliação. E advertiu: “O comportamento que suscitou discriminações, é difícil de ser esquecido, até do ponto de vista religioso".

“Certamente. Com muita humildade e realismo, percebemos que estes discursos, princípios e comportamentos devem ser recordados, continuamente, porque são sempre recolocados em questão e esquecidos. Jamais devemos nos iludir que o coração do homem pode ser mudado, de uma vez por todas, e tornado superior ao pecado e ao erro. O caminho do Papa, como o da Igreja e de todos nós, que tentamos seguir o exemplo do Senhor, deve ser sempre reproposto; devemos reconhecer, realmente, os erros cometidos e tentar curar as feridas, que sempre reaparecem. Neste sentido, o discurso do Papa no Lago Santa Ana, sobre as águas que curam, foi muito emocionante. Também nós, em nossa história, nos deparamos com algum mal, que sempre volta à gala, sobre o qual devemos fazer o possível para superar suas consequências e manifestações. Acho que Francisco nos deixou uma mensagem de coragem, confiança e esperança; mas não nos devemos iludir que resolvemos, definitivamente, os problemas. Quando construiremos a paz mundial de modo permanente? Deparamo-nos sempre com a tentação de divisões, ódios, guerras, egoísmos, aos quais devemos nos opor continuamente. Assim, a questão do respeito aos outros, sem nunca sermos superiores a ninguém, deve sempre nos acompanhar. É o que a sociedade canadense está tentando fazer nos últimos anos. A história das escolas residenciais é algo que nos deve levar a um exame de consciência sobre o respeito por uma cultura diferente e uma educação, que não deve ser negação, pelo contrário, deve ser de abertura e valorização”.

À luz do que o Papa disse e fez durante a sua Viagem ao Canadá e também à luz da Constituição Apostólica “Praedicate evangelium” como devemos empregar o conceito de inculturação da fé?

“Este tema, que sempre acompanhou a Igreja desde o Vaticano II, se refere a todas as culturas do mundo, tanto para a América Latina como para a Ásia e a África. Naturalmente, esta Viagem ao Canadá foi centralizada mais sobre as culturas indígenas e seus valores. No meu parecer, o último discurso feito aos Inuítes foi uma verdadeira obra-prima de compromisso com a inculturação, porque o Papa se referiu, explicitamente, ao principal documento recente sobre os valores da cultura Inuíte a serem mantidos pela sociedade e o mundo em mudança. Ele o fez, sobretudo em relação à cultura dos Inuítes, com base nos valores do Evangelho: um entrelaçamento entre a proclamação do Evangelho e os valores tradicionais, desafiados pelo mundo contemporâneo”.

O Papa disse aos jovens Inuítes: “Vocês são uma luz que ninguém jamais conseguiu sufocar”...

“Achei isso muito impressionante. Todos somos capazes de falar, em geral, sobre inculturação: nós a repetimos, todos os dias, mas, devemos praticá-la, levar a sério o que uma cultura significa na vida de cada dia e como se expressa. O anúncio do Evangelho pode valorizar ainda mais o que contém nesta cultura: purificando-a de certos elementos, que podem e devem ser superados, e levando-a a um maior amadurecimento e partilha também em relação com outras culturas. Por exemplo, em uma sociedade como a do Canadá, rica de imigrantes, com uma variedade incrível, seria necessário colher seu valor, relacioná-lo com o Evangelho e compartilhá-lo, demonstrando a sua importância, sob o ponto de vista da educação ambiental ou da preservação dos valores entre famílias e gerações. Eu diria que, a este respeito, o Papa nos deu um bom exemplo. No entanto, deve ser aprofundado também pela Igreja no Canadá e por todas as pessoas, que vivem naquela sociedade, às quais Francisco demonstrou solidariedade, participação, proximidade e cordialidade, que impressionou a todos. Este é um de seus grandes dons”.

Texto: Antonella Palermo / Vatican News

Foto: Vatican Media

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