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“Enchei as talhas de água” (Jo 2,7)

Publicado em 20 de janeiro de 2022 - 14:37:20

Todos os anos a liturgia da Igreja tem uma maneira de apresentar os textos, sobretudo do Evangelho e do Antigo Testamento, para que nós possamos ter uma compreensão melhor e uma leitura de toda a Sagrada Escritura. Quem fala que católico não lê a Bíblia é porque não vai à missa. Se fosse, saberia muito bem como é.

A liturgia alterna os textos especialmente do Evangelho em três anos diferentes: anos A, B e C; Mateus, Marcos e Lucas. Nós estamos celebrando, em 2022, o ano C. Por isso, particularmente neste ano, nós ouviremos os textos do Evangelho segundo São Lucas, com algumas exceções, em determinadas datas.

Estamos no início do Tempo Comum, que corresponde, dentro do Ano Litúrgico da Igreja, ao período em que Jesus mostra sua realidade, se revela aos discípulos. Jesus convida os discípulos a estarem com Ele para fazer algo como uma escola pedagógica de formação. É como se fosse um grande seminário para o qual Jesus chama os discípulos, para que aprendam o que é ser discípulo do Cristo.

Neste ano, a liturgia nos coloca uma sequência de textos que é bastante interessante. No início do mês (2 de janeiro), celebrávamos a Epifania do Senhor, com texto do Evangelho segundo São Mateus. No domingo seguinte (9 de janeiro), foi a festa do Batismo do Senhor, com texto do Evangelho de São Lucas. E, no último domingo (16), celebramos com o Evangelho de São João as Bodas de Caná.

Por que é que esses três textos são interessantes? Porque são situações que revelam Jesus. Na Epifania, são sinais do tempo, sinais dos céus que revelam quem é Jesus, quando os magos acompanham a estrela e, acompanhando a estrela, eles vão ao lugar onde estava Jesus com sua mãe Maria e José. Naquele lugar Jesus é revelado, é manifestado às nações (Mt 4,12-17.23-25).

No Batismo do Senhor, Jesus é revelado por uma voz que desce do céu e diz: “Este é o meu filho amado”. É o próprio Deus, o próprio Pai, que confirma que na presença de Jesus está a realidade divina. Jesus é filho de Deus, é aquele que foi enviado e é do próprio Pai a voz que manifesta isso, que revela Jesus (Lc 3,15-16.21-22).

Já no 2º Domingo do Tempo Comum, que celebramos em 16 de janeiro, quando lemos o relato sobre as Bodas de Caná (Jo 2,1-11), Jesus é revelado pelas suas obras. São as obras de Jesus que manifestam que Ele veio para ser aquela alegria que nós lemos em Isaías (Is 62,1-5), quando o profeta fala da alegria do cumprimento da Palavra de Deus. Os profetas anunciaram que Deus iria cumprir a sua vontade no futuro. Mas, em Jesus, não é mais simplesmente uma palavra, pois o Verbo de Deus se fez carne. A palavra de Deus assumiu a nossa natureza humana, assumiu a nossa condição, na fragilidade de uma criança, nas circunstâncias de um lugar, de uma vida. Jesus nasceu de Maria, da carne de Maria. Foi cuidado por Maria e José, precisou do cuidado dos pais. Mas agora ele manifesta pelas suas obras que ele é o filho de Deus.

O que Jesus realizou em Caná, na Galileia, é o primeiro sinal. E qual é esse sinal? A transformação de água em vinho. Jesus, seus discípulos e também Maria foram convidados para uma festa, que estava muito boa, mas de repente acabou a alegria da festa. O vinho é sinal de alegria, o vinho é sinal de coisa boa, de partilha, de fartura. Aquela família preparou uma grande festa, mas faltou alegria. E Maria toma a iniciativa de ir a Jesus e dizer: “Eles não têm mais vinho”. Jesus dá uma resposta que, no primeiro momento, podemos achar estranha: “A minha hora não chegou”. É porque a hora de Jesus é a cruz, pois é no mistério da cruz que Jesus, obediente até o fim à vontade de Deus, confirma todas as palavras dos profetas e realiza inteiramente a vontade do Pai. Apesar daquela resposta, logo em seguida, Jesus dá uma ordem: “Enchei as talhas de água”.

Bom, para quem precisava de vinho, encher as talhas de água parece algo inútil. E, às vezes, na nossa vida, fazemos coisas que não sabemos o motivo, que parecem sem sentido, que parecem inúteis. E para que serve isso? A resposta é que a obediência a Deus é o fundamento da ação miraculosa. A obediência a Deus é o princípio da transformação!

Para aquelas pessoas, encher as talhas com água boa certamente não foi um serviço fácil, não havia uma mangueira ali para colocar água limpa nas talhas. Certamente a água precisou ser buscada, tirada de algum lugar. Foi um esforço necessário. A obediência a Deus exige um esforço. Mas foi por causa da obediência que ali aconteceu uma grande transformação: a água se transformou em vinho.

Vamos pensar na nossa vida, na prática. Quando Deus nos pede algo, façamos com alegria. Quando Deus pede de nós algum esforço, façamos com coragem, não tenhamos preguiça de entrar na vontade de Deus. Se nós enchermos as nossas talhas pela metade, o vinho não será pleno. Deus não vai fazer aparecer vinho do nada. Deus não vai realizar obras quando nós temos preguiça de entrar na Sua vontade. Deus não vai operar maravilhas, se nós ficarmos com medo de fazer a nossa parte.

É Deus quem faz o milagre. Nós não temos a capacidade de transformar ou de fazer milagres, de operar coisas grandes, de transformar a água em vinho. Mas nós podemos, sim, com esforço, encher as talhas. Isso é necessário para que Deus faça o milagre. É assim que a vida cristã precisa ser vivida. Esse é o chamado à vida cristã. Essa era a escola que Jesus fazia com seus discípulos, a escola do Evangelho. É o que Ele quer fazer também com cada um de nós.

Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba

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