Colunas

  • Em Foco
  • Colunas
  • Quando os tapetes desaparecem

Quando os tapetes desaparecem

Publicado em 5 de junho de 2026 - 08:31:10

Todos os anos, na celebração de Corpus Christi, milhares de pessoas se dedicam à confecção dos tradicionais tapetes que ornamentam as ruas por onde passa a procissão com o Santíssimo Sacramento. Serragem colorida, areia, pó de café, flores, tampinhas de garrafa, papel, tecidos e tantos outros materiais simples transformam-se em verdadeiras obras de arte. Curiosamente, muitos desses materiais são descartáveis ou destinados a uma existência breve. Nas mãos de quem trabalha com fé, porém, aquilo que parecia sem valor ganha significado, beleza e finalidade.

Possivelmente, o aspecto mais importante dos tapetes não seja a arte que produzem, mas a comunhão que revelam. Eles não nascem do esforço isolado de uma pessoa, mas do trabalho conjunto de famílias, crianças, idosos, jovens, movimentos, pastorais e comunidades inteiras. Enquanto as mãos desenham símbolos e imagens religiosas, algo ainda mais profundo vai sendo construído: a experiência da unidade. Cada grupo contribui com o que pode, cada pessoa oferece seu tempo, e o resultado torna-se um testemunho visível de que a Igreja é formada por muitos membros que trabalham por um mesmo propósito.

A inspiração dos tapetes remete à Sagrada Escritura: preparar os caminhos para a passagem do Senhor. Assim como o povo acolhia reis e autoridades em momentos solenes, os cristãos preparam as ruas para receber Aquele que reconhecem como Rei dos reis. Entretanto, há uma diferença fundamental: em Corpus Christi, não se trata apenas de uma representação ou de uma recordação simbólica. Segundo a fé católica, é o próprio Cristo que passa sacramentalmente pelas ruas na Eucaristia. O Senhor deixa o espaço do templo e percorre caminhos que pertencem ao cotidiano das pessoas.

É significativo observar o cenário por onde a procissão passa. São ruas por onde circulam automóveis, motocicletas, bicicletas e pedestres apressados; lugares marcados pela rotina, pelo trabalho, pelas preocupações e pelos compromissos diários. Durante alguns instantes, porém, esses mesmos caminhos se transformam. O trânsito cede lugar à oração, o barulho dá espaço ao canto e a pressa é substituída pela contemplação. O que normalmente serve ao ritmo da vida cotidiana torna-se passagem para Aquele que é o Senhor da história.

A procissão também desperta a curiosidade daqueles que não participam diretamente da celebração. Muitos observam pelas janelas, pelas portas, das calçadas ou mesmo enquanto continuam trabalhando. Alguns acompanham por alguns minutos; outros fazem o sinal da cruz ao ver o ostensório passar. Há quem não compreenda plenamente o significado daquele momento, mas ainda assim é tocado por ele. A presença de Cristo ultrapassa os limites físicos da igreja e alcança pessoas que talvez jamais atravessassem suas portas.

Há, porém, um detalhe que chama particularmente a atenção: todo o trabalho realizado durante horas desaparece em poucos minutos. Os tapetes, cuidadosamente preparados, são desfeitos pela própria passagem da procissão. Logo depois, aquilo que exigiu dedicação, criatividade e esforço é varrido, recolhido e descartado. O que era belo simplesmente deixa de existir. O que parecia tão importante revela sua fragilidade.

Nesse contraste encontra-se uma profunda lição espiritual: os tapetes passam; só Cristo permanece. As imagens desenhadas desaparecem, mas a presença eucarística continua. O trabalho humano é transitório; Deus é eterno. Em uma cultura acostumada ao consumo rápido, às novidades passageiras e às experiências descartáveis, a Eucaristia proclama exatamente o contrário. Ela testemunha uma presença que não se esgota, não envelhece e não perde o seu valor com o tempo. Enquanto tantas coisas surgem e desaparecem rapidamente, Cristo permanece o mesmo ontem, hoje e sempre.

Talvez seja justamente por isso que Corpus Christi fale tão fortemente ao homem contemporâneo. Vivemos cercados por relações frágeis, compromissos temporários e promessas frequentemente descartadas. A Eucaristia, porém, é o sacramento da permanência. Nela, Cristo continua presente no meio do seu povo — não como uma lembrança distante do passado, mas como presença real, viva e atual.

Há ainda uma última dimensão que merece atenção. Quando Cristo sai em procissão, as ruas tornam-se uma extensão do templo. O sagrado ultrapassa as portas da igreja e entra em contato com a realidade do mundo, não para perder sua identidade, mas para iluminá-la. A fé cristã nunca foi destinada a permanecer confinada entre paredes. Ela existe para alcançar a vida cotidiana: as casas, os locais de trabalho, as escolas, os hospitais e todos os ambientes onde as pessoas vivem suas alegrias e sofrimentos.

Por isso, a procissão não termina quando o ostensório retorna à igreja. De certa forma, ela continua em cada cristão. Quem participa da celebração é chamado a prolongar no cotidiano aquilo que contemplou na solenidade. Cristo continua caminhando pelas ruas por meio daqueles que vivem a fé na família, no trabalho, na sociedade e nas decisões de cada dia. Os tapetes desaparecem. A procissão termina. Mas a missão permanece. E onde houver um cristão que testemunhe sua fé com coerência e amor, ali o Senhor continua passando pelos caminhos do mundo.

Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba

Anunciantes
Em Foco - Diocese de Piracicaba
Diocese de Piracicaba

Diocese de Piracicaba

O site Em Foco é o meio de comunicação oficial da Diocese de Piracicaba

Assessoria de Comunicação

Segunda a Sexta das 8h30 às 11h30 e das 13h30 às 17h30

Diocese de Piracicaba

Av. Independência, 1146 – Bairro Higienópolis - Cep: 13.419-155 – Piracicaba-SP - Fone: 19 2106-7556
Desenvolvido por index soluções